Onde estão os líderes?


Resumo: você trabalha vivendo ou vive trabalhando? Você se sente importante ou dispensável? Você é escutado ou barrado? Você se sente inspirado ou expirado? Você cansa ou se estressa? Você realiza ou obedece? Você é liderado ou chefiado? Você trabalha com o propósito de gerar valor socialmente útil ou apenas como uma ferramenta de gerar valor financeiro?

.

Marco Leonardelli Lovatto

Se você não está cultivando o próprio alimento, é porque alguém está fazendo isso por você. O trabalho é fundamental à vida. Mas você deseja viver trabalhando ou, quem sabe, trabalhar vivendo? O que está dentro de ti, hoje?

É verdade que nós só precisamos de dinheiro porque os outros também precisam. Mas, se você não precisasse de dinheiro, o que você faria para nós?

No trabalho, nos estudos e perante à sociedade, você escolheu ou foi escolhido? Você se sente importante ou dispensável? Você é escutado ou barrado? Você se sente inspirado ou expirado? Você cansa ou se estressa? Você realiza ou obedece? Você é liderado ou chefiado? Se sua resposta for sempre a segunda, cuidado: você não vive numa democracia.

Estou falando de uma completa desordem de valores, onde o dinheiro é o maior condutor das decisões humanas e, claro, da persuasão [1]. “Hoje, vivemos numa democracia”. Óbvio? Não, porque está errado. Vivemos num sistema onde o verdadeiro poder sempre foi financeiro, em oposição ao poder de inspirar ações com propósito.

Leia: Nem direita, nem esquerda: você mesmo

Cuidado com o óbvio. “É uma âncora que paralisa o pensamento e induz à falsidade, à distorção, ao erro” [2].

Algumas das grandes e antigas corporações foram construídas em valores militares herdados das guerras mundiais. Daí vem as palavras “missão” e “recrutamento”. Tais grupos não lhe querem trabalhando com elas, mas para elas. Salvo algumas exceções, não há interesse por pessoas inovadoras: elas querem trabalhadores obedientes. Portanto, se você acha que essas grandes e antigas empresas corporocráticas estão tentando contratar as pessoas mais bem informadas, perceptivas e criativas, desculpe-me em desapontá-lo.

Algumas das grandes e antigas corporações foram construídas em valores militares herdados das guerras mundiais, buscando trabalhadores obedientes.

A maioria dessas corporações mantém uma estrutura organizacional verticalizada e de comunicação unidirecional, de cima para baixo, sem que os cargos inferiores sejam prontamente ouvidos pelos superiores. Tudo para manter o status quo financeiro do cargo, onde o chefe está lá, preso à hierarquia, muito mais por ser alguém capaz de fazer dinheiro do que alguém capaz de inspirar pessoas.

Ali, o que se quer são pessoas suficientemente capazes de conduzir as tarefas determinadas pelo alto da hierarquia e ingênuas o suficiente para aceitar passivamente toda essa dominação tradicional. É uma dominação legítima que transforma o trabalhador numa ferramenta de gerar valor financeiro – para o grupo ou para si mesmo -, ao invés de num ator integrado que entenda o verdadeiro propósito de sua obra: gerar um valor socialmente útil.

É muito comum os trabalhadores sentirem-se uma ferramenta de gerar valor financeiro, ao invés de um ator integrado que entenda o verdadeiro propósito de sua obra.

Leia: Comunicação de mão dupla – valorizando as pessoas

De fato, há muitos chefes que não são líderes, porque não inspiram. Acreditam no dinheiro como o fundamento da sobrevivência própria e da corporação e que, através dele, pode-se ser independente. Entretanto, num mundo onde a maioria das pessoas não cultiva o próprio alimento, podemos mesmo ser “independentes”? Uma pessoa ou um grupo pode se auto-organizar, se auto-administrar, mas jamais será independente. Em sociedade, nós somos, na verdade, interdependentes.

Leia: Independência não existe

Se você acha, também, que práticas incorretas e as notícias ruins que vemos no jornal, rádio e televisão são exceções frente a um mundo baseado em valores humanos, triste ilusão. Basta discutir com alguns consultores de negócios – daqueles que acreditam no dinheiro como a solução para tudo – e você vai descobrir: planejar os passos sumariamente pisando nos desatentos não passa de negócios como de costume.

Planejar os passos sumariamente pisando nos desatentos não é a exceção de um mundo baseado em valores humanos. Tristemente, não passa de negócios como de costume.

O mesmo acontece na esfera da política partidária e instituições governamentais no mundo inteiro. Incorretamente, a “culpa” acaba caindo apenas nessa esfera devido ao poder da mídia tradicional, que frequentemente quer proteger seus interesses e não necessariamente as verdadeiras necessidades do seu público-alvo. Qual empresa de jornal, rádio ou televisão você conhece que utiliza a internet como canal eficiente para constante discussão com os cidadãos sobre aquilo que é noticiado, de forma aberta e amplamente visível a todos? No Brasil, não conheço nenhuma.

Incorretamente, a “culpa” acaba caindo apenas na esfera da política partidária e instituições governamentais devido ao poder da mídia tradicional.

Leia: A maioria não é modelo de sucesso

A grande maioria das pessoas no mundo sabe o que faz. Algumas sabem como fazem. Poucas, muito poucas, sabem porque fazem algo que não é pelo dinheiro [3]. São pessoas que, mesmo não precisando de dinheiro, continuariam trabalhando. É gente que tem um propósito de trabalho ligado à sua paixão e em nome da qualidade de vida coletiva. Gente que não está presa a espécie alguma de hierarquia, sendo verdadeiros líderes ou verdadeiros liderados, inspirados, e não expirados. Um trabalho que cansa, mas não estressa, pois se conhece o propósito, o resultado, aonde se quer chegar: o horizonte.

Felizmente, não há evidência alguma mostrando que os valores tradicionais e práticas comuns da atualidade serão relevantes amanhã [1]. E, para lhe dar a certeza de que nós não estamos apenas estudando a História do homem, mas também a moldando, lhe convido a ler o próximo texto: “Nem direita, nem esquerda: você mesmo”. Ali eu deixo uma série de exemplos de verdadeiros líderes – passando bem longe de Steve Jobs – que estão começando a mudar o mundo, também uma grande esperança à verdadeira democracia.

Felizmente, não há evidência alguma mostrando que os valores tradicionais e práticas comuns da atualidade serão relevantes amanhã [1].

.

Inspirações:

George Carlin – The American Dream

Referências:

[1] Peter Joseph – Culture in Decline.

[2] Mario Sergio Cortella, Qual é a tua obra? – Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética, 13ª ed, Petrópolis, Vozes, 2011.

[3] Simon Sinek – Como grandes líderes inspiram ação.

.

Textos relacionados:

Nem direita, nem esquerda: você mesmo

Comunicação de mão dupla – valorizando as pessoas

Independência não existe

A maioria não é modelo de sucesso

Ou veja TODOS OS TEXTOS PUBLICADOS.

Conheça nosso propósito e integre-se!

Este texto está sob uma licença livre Creative Commons. Permite-se e incentiva-se a cópia, tradução e adaptação por qualquer meio, desde que para fins não comerciais, mantendo-se essas mesmas condições e fazendo referência ao link original do texto em maodupla.org.

Anúncios