Heróis de verdade


Resumo: “Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros”. (Roberto Shinyashiki)

.

Marco Leonardelli Lovatto

.

Abaixo, trechos da entrevista completa “Cuidado com os burros motivados”, com Roberto Shinyashiki, à revista ISTOÉ. Roberto já foi citado neste blog no texto Os políticos somos nós, com a frase “a maioria não é modelo de sucesso”, título de outro texto.

Heroi

“Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros”.

[…]

“O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento. É contratado o sujeito com mais marketing pessoal. As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência. Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras. Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas, como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei na hora. Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa”.

[…]

“É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder”.

[…]

“Os MBAs ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates. O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades”.

[…]

“Jeito certo não existe. Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito”.

[…]

“Eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis”.

Espero que esses trechos incentivem-o a ler a entrevista completa. Finalmente, concluo com outra frase inspiradora: “A única pessoa que você deveria superar é a pessoa que você era ontem” [1].

.

Referências:

[1] I May Not Know Too Much, But This I Know

.

Leia também:

Jogo da Vida

Os políticos somos nós

A maioria não é modelo de sucesso

Independência não existe

Anúncios

O que é “Open Space”?


Resumo: “Open Space” (espaço aberto) é uma técnica de criação livre e colaborativa, onde os tópicos são propostos pelos participantes, e estes são livres para transitar entre as discussões. O resultado é uma experiência de liberdade num ambiente de criação e aprendizado de mão dupla.

.

Marco Leonardelli Lovatto

Pré-Start, 17.10.2012

Pré-Start: co-criação de conceitos de um “evento sustentável”. Net Impact Porto Alegre.

.

O Open Space (espaço aberto) é uma técnica de criação livre e colaborativa.

Num encontro onde é praticado o Open Space, não há apenas um foco de discussão, mas diversos. Cada foco é um tópico, possivelmente uma pergunta, do tipo: “Por que os impostos nos são impostos?”.

Embora um tema global possa ser escolhido, os tópicos são propostos livremente pelos participantes, na hora do encontro. Cada tópico vai chamar atenção de quem compartilha competências ou inquietações semelhantes, referentes ao tópico.

Embora um tema global possa ser escolhido, os tópicos são propostos livremente pelos participantes, na hora do encontro.

Tópicos semelhantes podem fundir-se num único tópico.

Tópicos diferentes são grupos diferentes, e grupos diferentes ficam em espaços diferentes. Existem três regras fundamentais:

1. Atraso do julgamento: não elimine ideias aparentemente ruins, pois podem juntar-se com outras e gerar algo genial.
2. Diálogo: falar com intenção e ouvir com atenção.
3. Regra dos dois pés: se você não está contribuindo ou aprendendo, utilize seus dois pés e saia do grupo, migrando para outro livremente. Não precisa nem dar tchau, o que interromperia o diálogo.

Quem propôs a discussão é o anfitrião, o único que deve permanecer no grupo e o responsável por:

1. Acolher quem quiser entrar e não questionar quem quiser sair.
2. Fazer a “colheita” (tomar notas) daquilo que está sendo co-criado.

Os diálogos em grupos têm uma duração determinada, chamada “sessão”. Ao fim da sessão, o anfitrião de cada tópico apresenta o resultado da co-criação a todos os outros.

É possível haver uma segunda sessão, terceira, quarta,… com novos tópicos ou continuando os anteriores.

O resultado, além daquilo que foi co-criado, é uma experiência de liberdade num ambiente de aprendizado de mão dupla.

O resultado, além daquilo que foi co-criado, é uma experiência de liberdade num ambiente de aprendizado de mão dupla.

Se você estiver participando de um verdadeiro Open Space e não conseguir conversar sobre aquilo que você realmente quer, a culpa é toda sua. 🙂

Ah! E não esqueça de deixar o café e o lanche liberados. Afinal, se nos encontros tradicionais é só no coffee break onde falamos sobre o que realmente queremos, por que não transformar o coffee break no próprio encontro? 😀

.

.

Inspiração: Estaleiro Liberdade – Preview.

.

Leia também:

Jogo da Vida

Comunicação de mão dupla – valorizando as pessoas

Ou veja todos os textos publicados.

.

Este texto está sob uma licença livre Creative Commons. Permite-se e incentiva-se a cópia, tradução e adaptação por qualquer meio, desde que para fins não comerciais, mantendo-se essas mesmas condições e fazendo referência ao link original do texto em maodupla.org.

Onde estão os líderes?


Resumo: você trabalha vivendo ou vive trabalhando? Você se sente importante ou dispensável? Você é escutado ou barrado? Você se sente inspirado ou expirado? Você cansa ou se estressa? Você realiza ou obedece? Você é liderado ou chefiado? Você trabalha com o propósito de gerar valor socialmente útil ou apenas como uma ferramenta de gerar valor financeiro?

.

Marco Leonardelli Lovatto

Se você não está cultivando o próprio alimento, é porque alguém está fazendo isso por você. O trabalho é fundamental à vida. Mas você deseja viver trabalhando ou, quem sabe, trabalhar vivendo? O que está dentro de ti, hoje?

É verdade que nós só precisamos de dinheiro porque os outros também precisam. Mas, se você não precisasse de dinheiro, o que você faria para nós?

No trabalho, nos estudos e perante à sociedade, você escolheu ou foi escolhido? Você se sente importante ou dispensável? Você é escutado ou barrado? Você se sente inspirado ou expirado? Você cansa ou se estressa? Você realiza ou obedece? Você é liderado ou chefiado? Se sua resposta for sempre a segunda, cuidado: você não vive numa democracia.

Estou falando de uma completa desordem de valores, onde o dinheiro é o maior condutor das decisões humanas e, claro, da persuasão [1]. “Hoje, vivemos numa democracia”. Óbvio? Não, porque está errado. Vivemos num sistema onde o verdadeiro poder sempre foi financeiro, em oposição ao poder de inspirar ações com propósito.

Leia: Nem direita, nem esquerda: você mesmo

Cuidado com o óbvio. “É uma âncora que paralisa o pensamento e induz à falsidade, à distorção, ao erro” [2].

Algumas das grandes e antigas corporações foram construídas em valores militares herdados das guerras mundiais. Daí vem as palavras “missão” e “recrutamento”. Tais grupos não lhe querem trabalhando com elas, mas para elas. Salvo algumas exceções, não há interesse por pessoas inovadoras: elas querem trabalhadores obedientes. Portanto, se você acha que essas grandes e antigas empresas corporocráticas estão tentando contratar as pessoas mais bem informadas, perceptivas e criativas, desculpe-me em desapontá-lo.

Algumas das grandes e antigas corporações foram construídas em valores militares herdados das guerras mundiais, buscando trabalhadores obedientes.

A maioria dessas corporações mantém uma estrutura organizacional verticalizada e de comunicação unidirecional, de cima para baixo, sem que os cargos inferiores sejam prontamente ouvidos pelos superiores. Tudo para manter o status quo financeiro do cargo, onde o chefe está lá, preso à hierarquia, muito mais por ser alguém capaz de fazer dinheiro do que alguém capaz de inspirar pessoas.

Ali, o que se quer são pessoas suficientemente capazes de conduzir as tarefas determinadas pelo alto da hierarquia e ingênuas o suficiente para aceitar passivamente toda essa dominação tradicional. É uma dominação legítima que transforma o trabalhador numa ferramenta de gerar valor financeiro – para o grupo ou para si mesmo -, ao invés de num ator integrado que entenda o verdadeiro propósito de sua obra: gerar um valor socialmente útil.

É muito comum os trabalhadores sentirem-se uma ferramenta de gerar valor financeiro, ao invés de um ator integrado que entenda o verdadeiro propósito de sua obra.

Leia: Comunicação de mão dupla – valorizando as pessoas

De fato, há muitos chefes que não são líderes, porque não inspiram. Acreditam no dinheiro como o fundamento da sobrevivência própria e da corporação e que, através dele, pode-se ser independente. Entretanto, num mundo onde a maioria das pessoas não cultiva o próprio alimento, podemos mesmo ser “independentes”? Uma pessoa ou um grupo pode se auto-organizar, se auto-administrar, mas jamais será independente. Em sociedade, nós somos, na verdade, interdependentes.

Leia: Independência não existe

Se você acha, também, que práticas incorretas e as notícias ruins que vemos no jornal, rádio e televisão são exceções frente a um mundo baseado em valores humanos, triste ilusão. Basta discutir com alguns consultores de negócios – daqueles que acreditam no dinheiro como a solução para tudo – e você vai descobrir: planejar os passos sumariamente pisando nos desatentos não passa de negócios como de costume.

Planejar os passos sumariamente pisando nos desatentos não é a exceção de um mundo baseado em valores humanos. Tristemente, não passa de negócios como de costume.

O mesmo acontece na esfera da política partidária e instituições governamentais no mundo inteiro. Incorretamente, a “culpa” acaba caindo apenas nessa esfera devido ao poder da mídia tradicional, que frequentemente quer proteger seus interesses e não necessariamente as verdadeiras necessidades do seu público-alvo. Qual empresa de jornal, rádio ou televisão você conhece que utiliza a internet como canal eficiente para constante discussão com os cidadãos sobre aquilo que é noticiado, de forma aberta e amplamente visível a todos? No Brasil, não conheço nenhuma.

Incorretamente, a “culpa” acaba caindo apenas na esfera da política partidária e instituições governamentais devido ao poder da mídia tradicional.

Leia: A maioria não é modelo de sucesso

A grande maioria das pessoas no mundo sabe o que faz. Algumas sabem como fazem. Poucas, muito poucas, sabem porque fazem algo que não é pelo dinheiro [3]. São pessoas que, mesmo não precisando de dinheiro, continuariam trabalhando. É gente que tem um propósito de trabalho ligado à sua paixão e em nome da qualidade de vida coletiva. Gente que não está presa a espécie alguma de hierarquia, sendo verdadeiros líderes ou verdadeiros liderados, inspirados, e não expirados. Um trabalho que cansa, mas não estressa, pois se conhece o propósito, o resultado, aonde se quer chegar: o horizonte.

Felizmente, não há evidência alguma mostrando que os valores tradicionais e práticas comuns da atualidade serão relevantes amanhã [1]. E, para lhe dar a certeza de que nós não estamos apenas estudando a História do homem, mas também a moldando, lhe convido a ler o próximo texto: “Nem direita, nem esquerda: você mesmo”. Ali eu deixo uma série de exemplos de verdadeiros líderes – passando bem longe de Steve Jobs – que estão começando a mudar o mundo, também uma grande esperança à verdadeira democracia.

Felizmente, não há evidência alguma mostrando que os valores tradicionais e práticas comuns da atualidade serão relevantes amanhã [1].

.

Inspirações:

George Carlin – The American Dream

Referências:

[1] Peter Joseph – Culture in Decline.

[2] Mario Sergio Cortella, Qual é a tua obra? – Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética, 13ª ed, Petrópolis, Vozes, 2011.

[3] Simon Sinek – Como grandes líderes inspiram ação.

.

Textos relacionados:

Nem direita, nem esquerda: você mesmo

Comunicação de mão dupla – valorizando as pessoas

Independência não existe

A maioria não é modelo de sucesso

Ou veja TODOS OS TEXTOS PUBLICADOS.

Conheça nosso propósito e integre-se!

Este texto está sob uma licença livre Creative Commons. Permite-se e incentiva-se a cópia, tradução e adaptação por qualquer meio, desde que para fins não comerciais, mantendo-se essas mesmas condições e fazendo referência ao link original do texto em maodupla.org.

Independência não existe


Resumo: Num mundo onde a maioria das pessoas não cultiva o próprio alimento, podemos mesmo ser “independentes”? Não dependemos fundamentalmente do dinheiro, e sim das pessoas. Todavia, o homem esqueceu-se disso no momento em que inventou a moeda, geradora de um mundo que só ensina a ajudar os outros depois de competir pelo dinheiro.

.

Antes de confundir esse texto com uma tendência comunista, recomendo a leitura de “Nem direita, nem esquerda: você mesmo“; ou tão simplesmente da nosso propósito.

.

Marco Leonardelli Lovatto

No próximo texto a ser publicado, chamado A crise não é econômica, vou procurar deixar claro que a crise financeira internacional só tornou-se crise econômica porque as pessoas acreditam que são dependentes das finanças.

Entretanto, ninguém come dinheiro. Se hoje você não está plantando, colhendo, criando, abatendo e fazendo a limpeza para recomeçar tudo no dia seguinte é porque alguém está fazendo isso por você. Neste exato momento.

Se hoje você não está plantando, colhendo, criando, abatendo e fazendo a limpeza para recomeçar tudo no dia seguinte é porque alguém está fazendo isso por você.

Imagine que existam apenas três pessoas num vilarejo: um artesão, um fruteiro e um agricultor. O agricultor carrega o único dinheiro que tem com o objetivo de comprar um cobertor do artesão, pois está com frio. O artesão, com o dinheiro que recebeu do agricultor, irá comprar um cacho de bananas do fruteiro, pois está com fome. O fruteiro, por sua vez, com aquele dinheiro, irá pagar o agricultor do início da história por mais um cacho de bananas: o dinheiro voltou à sua origem.

A primeira observação é que ninguém ganhou um tostão e ninguém perdeu um tostão, o que não impediu de os produtos circularem. A segunda observação é, na verdade, uma pergunta: supondo que o agricultor, sem querer, deixe cair o dinheiro num precipício de forma que ele seja irrecuperável, o artesão vai morrer de fome, o agricultor vai morrer de frio e o fruteiro vai deixar de plantar?

A resposta mais fácil é “não, claro que não”. Entretanto, é justamente isso o que aconteceu nas crises de 1929 e 2008: antes de se descobrir o desaparecimento do dinheiro, os produtos dos quais dependemos continuavam existindo. Mesmo assim, porque o dinheiro desapareceu, de repente muitas pessoas e grupos não tinham mais direito a acessar aquilo que continuava disponível.

Leia: A crise não é econômica

Caro leitor, é hora de acordarmos e dar-nos conta de que, em sociedade, independência não existe. Independência financeira não nos torna independentes das pessoas. Vivendo em sociedade, cada um de nós é dependente do que ela produz e, portanto, de todas as pessoas que ela compõe. A história do vilarejo é apenas uma alegoria da sociedade na qual vivemos: interdependente.

Vivendo em sociedade, cada um de nós é dependente do que ela produz e, portanto, de todas as pessoas que ela compõe.

Não é o seu dinheiro que lhe oferece bens e serviços, e sim as pessoas que trabalham por eles. Não serei servido de um prato saboroso num bom restaurante porque posso pagar por isso, mas porque existe alguém capaz de me servir. Por exemplo, o alimento que o restaurante me oferece foi produzido por um agricultor, e o professor que contribuiu para a formação dele está sentado à mesa ao lado. Sem que ninguém no restaurante saiba, eu contribuí para a existência do parque eólico que garante energia elétrica para a família do agricultor. Fiz isso graças à energia alimentar que o restaurante me proporcionou.

Se eu vivo em sociedade, nunca serei independente. Para falar a verdade, nem mesmo financeiramente independente poderei ser. Afinal, o dinheiro que eu ganho não depende apenas do meu trabalho, uma vez que meu trabalho depende do trabalho de outros.

O dinheiro que você ganha não depende apenas do seu trabalho, uma vez que seu trabalho depende do trabalho de outros.

O homem coopera muito mais do que se imagina, e o fato é que sempre cooperou. Ele apenas se esqueceu disso no momento em que inventou a moeda, a tal “mercadoria coringa”, geradora de um mundo onde o homem só é ensinado a ajudar os outros depois de competir pelo dinheiro.

O trabalho deixou de ser visto como uma necessidade e passou a ser visto como um meio. Um meio de se obter conforto. Quanto mais conforto se quer, mais se trabalha e menos interagimos com o cidadão ao lado, porque ele também é egoísta na sua busca por conforto individual. O resultado é que o valor dado ao dinheiro sobrepôs-se ao valor dado às pessoas, gerando uma sociedade competitiva, e não cooperativa, prejudicando cada vez mais as relações de confiança, as únicas que trazem verdadeira qualidade de vida. Entretanto, trabalhar é ajudar, e não há quem tenha sucesso e seja feliz no trabalho sem ter como propósito ajudar os outros.

Trabalhar é ajudar, e não há quem tenha sucesso e seja feliz no trabalho sem ter como propósito ajudar os outros.

As pessoas trabalham por um grupo ou por elas mesmas, e isso todos sabemos. O que muita gente não sabe é que sua obra é muito maior. Sua obra é a sociedade. A pessoa trabalha para a sociedade, que também trabalha para ela.

Não sabemos viver sozinhos. Portanto, está na hora de qualificar as interações e diminuir a ineficiência de se trabalhar separadamente com objetivos semelhantes. Afinal, ninguém tem respostas completas para os problemas que enfrentamos e cada um de nós é ruim na pretensão de ser o melhor [1].

Leia: Os políticos somos nós

Está na hora de qualificar as interações e diminuir a ineficiência de se trabalhar separadamente com objetivos semelhantes.

Luiz Fernando Veríssimo escreveu:  “O mundo é como um espelho que devolve a cada pessoa o reflexo de seus próprios pensamentos”. Muito além de literatura filosófica, é uma observação evidente para quem entende que somos interdependentes. Ser honesto e bom, embora cauteloso num mundo onde não se pode confiar em todos, potencializa o encontro de pessoas com as mesmas inquietações. Por exemplo, a cada palavra dita ou ação feita rumo ao nosso propósito, a sociedade sofre um impacto positivo.  Lento, mas positivo.

Sua integração nos Trilhos de Mão Dupla gera um retorno para você mesmo, mas coletivo, e nada pode ser mais correto que o bem comum.

Como disse Madre Tereza de Calcutá: “O problema com o mundo é que traçamos um círculo muito pequeno para a nossa família”. Na verdade, ele tem 13 mil quilômetros de diâmetro.

.

INTERDEPENDÊNCIA ou morte!

001 Ricardo guimaraes from TEDxRio on Vimeo.

Referências:

[1] “Cada um de nós é ruim na pretensão de ser o melhor”. (Pe. Marc Lambret)

.

Conheça nosso propósito e integre-se!

Este texto está sob uma licença livre Creative Commons. Permite-se e incentiva-se a cópia, tradução e adaptação por qualquer meio, desde que para fins não comerciais, mantendo-se essas mesmas condições e fazendo referência ao link original do texto em maodupla.org.

Leia também:

A crise não é econômica

Os políticos somos nós

A maioria não é modelo de sucesso

Comunicação de mão dupla – valorizando as pessoas

Ou veja TODOS OS TEXTOS PUBLICADOS

Os políticos somos nós


Resumo: Nossa sociedade está mergulhada numa angustiante descrença nas instituições representativas, o que é compreensível. Entretanto, é ilusão procurar por pessoas que serão, sozinhas, solucionadoras de problemas. Afinal, quem constrói esse mundo somos nós, com as nossas atitudes.

.

Marco Leonardelli Lovatto

Concordo que a existência de corrupção entre os representantes políticos seja um problema gravíssimo. Entretanto, isto é apenas o reflexo do que a própria população tem buscado: escapar de um mundo ineficiente e individualista, priorizando o conforto próprio sem saber diferenciar o que é justo do que é correto.

Corrupção na política é apenas o reflexo do que a própria população tem buscado: o conforto próprio sem saber diferenciar o que é justo do que é correto.

Transparência,  ficha limpa, extinção do voto secreto e extinção da imunidade parlamentar são todos bons caminhos para combater a corrupção na sua forma mais conhecida. Mesmo assim, pedir exímia conduta dos nossos governantes exige modéstia e que coloquemos em dúvida as práticas dos próprios cidadãos.

Perguntamos com frequência: quanto o governo roubou? Mas esquecemos de perguntar: quanto o cidadão não foi correto com alguém, pois tirar vantagem foi exclusivamente o que ele pensou?

Por exemplo: nós, eleitores, não demos aos governantes a liberdade roubar, da mesma forma que muitos autores de obras digitais não nos deram a liberdade de disseminar cópias de seus trabalhos ou de adquiri-las semi-gratuitamente. A aquisição mal-paga de produtos digitais protegidos por direitos autorais está incrustado na nossa cultura desde que a tecnologia passou a permitir. A tecnologia, não os autores das obras.

Nós não demos aos governantes a liberdade roubar, da mesma forma que muitos autores de obras digitais não nos deram a liberdade de disseminar semi-gratuitamente seus trabalhos.

Habitualmente, quem costuma baixar música protegida sem conhecer a fonte da cópia original argumenta que “é até melhor” para o artista, pois é um meio de “marketing gratuito”, promovendo-o em shows e publicidade de marcas. Concordo que disponibilizar músicas gratuitamente poderia até ser uma boa estratégia; no entanto, apenas o artista e o produtor têm o direito de decidir a respeito disso. Quem disse que uma banda deseja fazer grandes turnês mundiais para rentabilizar sua arte? Já falando de download de softwares, filmes e livros,  nem sequer se pode fazer shows com eles.

O cético vai insistir: “os produtores não vão ficar mais pobres, pois já têm o suficiente”. Novamente, cabe unicamente ao produtor fazer tal afirmação. Lembre-se: se você trabalha, você também produz. Você já tem o “suficiente”?

Por um lado, há uma grande resistência das produtoras, editoras e lojas em se adaptarem às novas tecnologias e ao fim das fronteiras no fluxo de informação e de obras digitais, o que ajuda a promover a pirataria. Por outro lado, é muito comum o consumidor confundir liberdade com viabilidade.

O cidadão que deixa de pagar por um produto protegido – e comercializado localmente – não o faz porque ele é livre, mas porque é uma ação viável. Neste caso, eu tenho o pesar de lhe informar, mas o dever de lhe dizer: este cidadão pensou exatamente da mesma forma que os políticos de quem gostamos de reclamar. A apropriação indevida foi considerada viável, possível e, por alguma razão, foi considerada justa.

O cidadão que deixa de pagar por um produto protegido não o faz porque ele é livre, mas porque é uma ação viável, e ele pensou exatamente da mesma forma que os políticos de quem gostamos de reclamar.

Um argumento típico ao se comparar as duas situações é o nível de gravidade, mas ela não elimina a existência de irresponsabilidade, qualquer que seja o caso.

O conforto das pessoas vem dos bens e serviços que elas consomem, e a produção desses produtos consome energia. Portanto, quanto maior o conforto, maior a energia consumida. Esta energia está embutida no valor de todo e qualquer produto, e parte dela é trabalho humano. O cidadão que não paga por um produto protegido, físico ou digital, não está contribuindo para a remuneração das pessoas que trabalharam para lhe oferecer aquele conforto. Portanto, ele  não é correto com o produtor e de forma totalmente análoga a qualquer outra forma de corrupção.

Pergunta-se, então: onde está a tão aclamada “justiça”? É comum ouvir dizer que não precisamos ser justos enquanto somos injustiçados. Seria algo como: “primeiro os governantes deixam de roubar, depois eu me preocupo em declarar todas minhas fontes de renda”. Entretanto, isso é responder ao egoísmo com egoísmo, ao desrespeito com desrespeito: fonte das mais graves ineficiências da sociedade, pois se está retroalimentando um ciclo doente.

Existe uma grande diferença entre ser justo e ser correto. Ser justo é responder em igual natureza e intensidade. Ser correto é responder com sua definição pessoal do que é o bem. Assim, a liberdade de cada um está na escolha entre (1) pisar na vida que te pisa e (2) mostrar o caminho certo para os que te pisam. Quem escolhe o primeiro mostra-se alinhado a uma sociedade extremamente doente, o que não pode ser louvável, pois é sinal de que se está tão doente quanto ela.

Existe uma grande diferença entre ser justo e ser correto. Ser justo é responder em igual natureza e intensidade. Ser correto é responder com sua definição pessoal do que é o bem.

George Carlin, comediante norte-americano, diz: “Os políticos não atravessaram uma membrana vindos de outra dimensão. Eles vieram de famílias americanas, escolas americanas, universidades americanas, empresas americanas… É o que nosso sistema produz: lixo entra, lixo sai”. De fato, a existência de corrupção entre os governantes é tão unicamente o reflexo da própria população, pois todos ainda compartilham do mesmo mundo competitivo e individualista, o que nos leva a priorizar o conforto próprio, custe “quem” custar, sem saber diferenciar o que é justo do que é correto.

Leia: Jogo da Vida

Como gosto de dizer, enquanto todos procurarmos o que é justo, ninguém encontrará o que é correto. Estamos promovendo, sem dar-nos conta, o mesmo mundo ineficiente do qual se quer escapar. Infelizmente, a corrupção é de mão dupla.

Enquanto todos procurarmos o que é justo, ninguém encontrará o que é correto.

Normalmente, preferimos aderir à opinião pública e à forma da maioria agir, pois isso nos dá conforto, já que não precisamos ser ousados. Entretanto, apontar para um criminoso e dizer “esse é um cara mau” não faz de você uma pessoa boa. Principalmente quando o melhor que se sabe fazer é culpar os “políticos” enquanto se esconde sobre diversos andares entre grades e cercas elétricas. Não. Isso definitivamente não nos torna bons.

Apontar para um criminoso e dizer “esse é um cara mau” não faz de você uma pessoa boa.

Cada um de nós é ruim na pretensão de ser o melhor [1] e, se estivéssemos fazendo o melhor, então estaríamos melhores. A maioria não é modelo de sucesso [2] e colocar em dúvida as práticas atuais é a melhor maneira de começar a mudar.

Por enquanto, apenas votar nas eleições é a coisa mais preguiçosa que podemos fazer. Sempre precisaremos de instituições representativas, mas é ilusão procurar por pessoas que serão, sozinhas, solucionadoras de problemas. É hora de quebrar paradigmas: quem constrói esse mundo somos nós, com as nossas atitudes.

 Os políticos somos nós.

.

[1] Frase inspiradora de Pe. Marc Lambret.

[2] Frase inspiradora de Roberto Shinyashiki.

.

Conheça nosso propósito e integre-se!

Este texto está sob uma licença livre Creative Commons. Permite-se e incentiva-se a cópia, tradução e adaptação por qualquer meio, desde que para fins não comerciais, mantendo-se essas mesmas condições e fazendo referência ao link original do texto em maodupla.org.

Leia também:

Nem direita, nem esquerda: você mesmo

Onde estão os líderes?

A crise não é econômica

Independência não existe

Ou veja TODOS OS TEXTOS PUBLICADOS

Comunicação de mão dupla – valorizando as pessoas


Resumo: Funcionários que não são ouvidos pelos seus empregadores possivelmente não verão a importância do seu trabalho reconhecida, o que conduz à falta de motivação e baixa produtividade. Ultrapassando a desigualdade de oportunidades de Ensino e Educação, a construção de uma ponte entre o patrão e o empregado, de comunicação bidirecional, é fonte de compreensão mútua e convergência de objetivos numa necessidade produtiva unânime, solidificando a base de qualquer grupo.

.

Marco Leonardelli Lovatto

LeaderMuitas organizações ainda insistem numa via de comunicação unidirecional, dos administradores aos empregados, sem que os últimos sejam ouvidos. Esse sistema, que tenta inverter a pirâmide hierárquica como se a ponta fosse sua base, apenas gera instabilidade. Entretanto, a construção de uma ponte entre o patrão e o empregado, de comunicação bidirecional, é fonte de compreensão mútua e convergência de objetivos numa necessidade produtiva unânime, solidificando a base de qualquer grupo.

Minha intenção certamente não é de propor soluções infalíveis, mas mais modestamente de apresentar uma simples teoria, onde a crise internacional é muito mais que econômica: é uma crise de reconhecimento.

Uma vez li no site de uma grande empresa: “É impossível atingir a excelência nos resultados financeiros, de produtividade e de tecnologia sem valorizar as pessoas. […] Empregados motivados contribuem espontaneamente e comprometem-se com o bom desempenho e com os resultados organizacionais”.

Toda sociedade é composta por empregados/colaboradores, a base, o pedestal da pirâmide hierárquica. Então, o administrador, no topo, deveria ser o responsável não somente por seu produto, mas também por seus funcionários.

A responsabilidade do administrador é de harmonizar o grupo, rumo a uma necessidade produtiva unânime. Todavia, as necessidades não irão passar de interesses conflitantes enquanto a informação trafegar num único sentido: dos gestores aos empregados, sem que os últimos sejam ouvidos. Assim, os assalariados possivelmente não verão a importância do seu trabalho reconhecida, o que conduz à falta de motivação e baixa produtividade.

Funcionários que não são ouvidos pelos seus empregadores possivelmente não verão a importância do seu trabalho reconhecida, o que conduz à falta de motivação e baixa produtividade.

Esse sistema, chamado de via de comunicação unidirecional, é muito instável. Incrivelmente, ele persiste em numerosos estabelecimentos, onde as necessidades do funcionário acabam por se resumir nos direitos trabalhistas.

A melhor empresa para trabalhar não é aquela que promete salubridade, cargos e salários elevados. O empregado não deve esperar ter um plano de carreira colado no seu mural, da mesma maneira que o administrador não pode esperar ter um funcionário para sempre. Seja o administrador ou o empregado, nenhum deles deve esperar uma recompensa maior que a certeza de estar cumprindo com suas responsabilidades, certeza que vem do reconhecimento do papel da cada um. Quando o empregador torna-se não apenas um chefe, mas um líder para seu empregado, é bem provável que este trabalhe com gratidão e seja visto como indispensável pelo empregador.

Quando o empregador torna-se um líder para seu empregado, é bem provável que  este trabalhe com gratidão e seja visto como indispensável pelo empregador.

No momento do recrutamento, empregado e empregador não compartilham, geralmente, de objetivos em comum. De fato, eles não se conhecem. O empregado motivado quer a opinião de seu superior, e espera o seu apoio. No entanto, é possível que o gestor não mostre disponibilidade, pois acredita que a pró-atividade de seus empregados é automática e a única fonte de produtividade. Na verdade, a construção de uma ponte é muito importante e apenas o empregador pode colocar a primeira pedra: aquela de uma via de comunicação bidirecional, de mão dupla, fonte de reconhecimento e compreensão mútua.

A tarefa mais difícil é aquela do presidente. Ele deve motivar todos, sem que haja alguém acima que o motive. Se ele não vê uma utilidade nobre para seu trabalho, onde o dinheiro é a única recompensa, torna-se impossível motivar seus funcionários. Ora, se a organização passa ao empregado a sensação de que ele é dispensável, dependendo do ramo, é muito provável que a organização também seja dispensável para o empregado [2]. Resultado: crise, revoltas e falência.

Se a organização passa ao empregado a sensação de que ele é dispensável, dependendo do ramo, é muito provável que a organização também seja dispensável para o empregado [2].

É difícil dizer para alguém fazer algo que não se quer [3]. Então, não espere de uma pessoa aquilo que ela não pode dar. Mario Sergio Cortella, professor e filósofo, diz [4] que há uma enorme diferença de atitude e de postura entre vigiar e supervisionar. Vigiar é uma atitude passiva, à distância e desconfiada. Supervisionar é uma ação ativa, próxima e segura. “Quem dá uma festa supervisiona seus convidados, não os vigia”. Da mesma forma no trabalho: não se deve vigiar os funcionários, mas supervisioná-los, guardando uma atitude ativa, próxima e confiante que os motivará cada vez mais.

Quando um empregado é formado de maneira contínua por seu responsável, surge a percepção de pertencimento à história, ao contexto e ao funcionamento da organização. O assalariado terá, então, uma enorme capacidade de identificar as necessidades, que serão automaticamente ligadas aos objetivos daqueles que o empregaram. Como consequência, ele não apenas espera seu salário mensal, mas também se sente parte integrante de uma sociedade com um objetivo em comum. Por sua vez, o gestor ouve seu funcionário e reconhece, assim, mais facilmente as prioridades entre as necessidades.

Infelizmente, essa teoria não é infalível, mesmo com o melhor administrador do mundo, pois o bom senso das pessoas depende das oportunidades de aprendizado de cada um. Geralmente sabemos o que buscamos, mas nem todas as pessoas fazem o que elas querem: muitas fazem o que conseguem fazer.

Leia: A maioria não é modelo de sucesso

Infelizmente, essa teoria não é infalível, pois o bom senso das pessoas depende das oportunidades de aprendizado de cada um.

Ultrapassando a desigualdade de oportunidades de Ensino e Educação, com uma via de comunicação bidirecional, a tarefa de harmonizar as necessidades da organização e dos colaboradores torna-se incomparavelmente mais fácil. Terminamos por lembrar, então, do trecho no início deste texto: “É impossível atingir a excelência nos resultados financeiros, de produtividade e de tecnologia sem valorizar as pessoas”.

Na esfera das políticas públicas, as responsabilidades são sempre com as pessoas: físicas e jurídicas; e o objetivo também é a harmonia: deles e entre eles. Portanto, a ideia de comunicação bidirecional deveria ser igualmente válida.

E por que não em casa? Na família, nos esportes, entre os amigos? Enfim, em qualquer tipo de relação?

Aplique-a. A comunicação de mão dupla é construtiva para todos, fonte de acessibilidade, de colaboração e de compreensão mútuas. Em seguida, de produtividade, estabilidade e progresso.

.

[2] Mario Sergio Cortella. Qual é a tua obra? – Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. 13ª Edição. Editora Vozes. 2011.

[3] Thomas Philippon. Le capitalisme d’héritiers – La crise française du travail. Seuil. 2007.

[4] Mario Sergio Cortella. Viver em paz para morrer em paz (paixão, sentido e felicidade). Coleção O que a Vida me Ensinou. Editora Saraiva. 2009.

.

Este texto está sob uma licença livre Creative Commons. Permite-se e incentiva-se a cópia, tradução e adaptação por qualquer meio, desde que para fins não comerciais, mantendo-se essas mesmas condições e fazendo referência ao link original do texto em maodupla.org.

Leia também:

O que é “Open Space”?

Os políticos somos nós

A crise não é econômica

Independência não existe

Ou veja TODOS OS TEXTOS PUBLICADOS