Nem direita, nem esquerda: você mesmo


Resumo: desejar um Estado comunista e paternalista de economia planificada é sinal de imaturidade, da mesma forma que a valorizar a concepção competitiva do liberalismo num mundo que é essencialmente interdependente. Por outro lado, estamos no início de um mundo auto-organizado de responsabilidade compartilhada, onde ”podemos alcançar uma nova era de promessas cumpridas se todos nós nos envolvermos” [1].

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Marco Leonardelli Lovatto

Existe um pré-conceito muito grande contra aqueles que questionam as práticas atuais: muitos dos que acreditam em mudanças são imediatamente taxados de comunistas ou esquerdistas, enquanto suas ideias não passam nem perto de qualquer princípio encontrado no século 20. Esse é o caso dos Trilhos de Mão Dupla.

As ideias de muitos dos que acreditam em mudanças não passam nem perto de qualquer princípio encontrado no século 20.

Falta educação? Falta urbanismo? Falta infraestrutura? Você já reparou como as mudanças mais importantes para a sociedade levam tanto tempo para ocorrer? Se você acha que isso é devido à falta de dinheiro, eu acho que é devido à falta de responsabilidade dos próprios cidadãos, como aqueles que, de fato, produzem os bens da sociedade.

É claro que o Estado, como ele é hoje, tem o papel de garantir o essencial a todos os cidadãos de forma a não deixa-los à mercê de interesses individualistas dos proprietários dos meios de produção. Isso é louvável, historicamente falando. Entretanto, acreditar na perpetuação dessa forma de governo paternalista é assinar o próprio atestado de imaturidade.

Através do nosso trabalho, somos nós, cidadãos, individualmente ou reunidos em grupos (como as empresas), os responsáveis pela produção e circulação dos bens e serviços dos quais dependemos. Não os governos. Os governos tem a função de gerenciar recursos, provenientes dos impostos, mas quem faz acontecer as obras de infraestrutura, por exemplo, são outros trabalhadores, cidadãos funcionários de empreiteiras contratadas pelo governo, não necessariamente envolvidos com algum partido político.

Nessas licitações de obras, diga-se de passagem, é comum aparecerem critérios doentes baseados no preço, e não na qualidade. E quem paga essas obras não é o governo, somos nós, cidadãos, através dos tais de impostos. Pagamos obras baratas, demoradas e de má qualidade.

Nessa circunstância, como podemos acreditar que serão os governos, sozinhos, solucionadores dos problemas? Onde os próprios governantes e partidos competem entre si por cargos e poder, ao invés de se deterem àquilo que nos é importante? Como podemos acreditar que um modelo baseado na competição por dinheiro pode nos fornecer um estado de confiança nas pessoas e nos ambientes públicos, fruto da verdadeira qualidade de vida? Como podemos acreditar que podemos conquistar a “independência”, enquanto a maioria das pessoas não sabe cultivar o próprio alimento?

Como podemos acreditar que serão os governos, sozinhos, solucionadores dos problemas? Onde os próprios governantes e partidos competem entre si por cargos e poder, ao invés de se deterem àquilo que nos é importante?

Acredito que sempre precisaremos de instituições representativas, mas será mesmo que precisamos de alguém dizendo-nos o que fazer, e de que forma, como pregam os verdadeiros comunistas de economia planificada? De maneira equivalente, será mesmo que a concepção ganha-perde do liberalismo (o cada-um-por-si) atende ao fato de que, em sociedade, ninguém pode ser independente? Ao fato de que, embora possamos ser autônomos, somos todos interdependentes?
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Na verdade, os próprios cidadãos são mais capazes que o governo de resolver seus problemas. Afinal, se o Estado toma uma suposta decisão insana de não contratar uma empresa para consertar as máquinas do tratamento de água, de forma que ela não chegue potável em nossas casas, nós vamos usar água contaminada para sempre? É claro que não: nós vamos nos auto-organizar e fazer o que precisa ser feito em nome do nosso bem.

Os próprios cidadãos são mais capazes que o governo de resolver seus problemas. Sempre que necessário, nós vamos fazer o que precisa ser feito em nome do nosso bem.

E é justamente isso o que tem acontecido cada vez mais: auto-organização. Dê uma olhada nos seguintes exemplos de sucesso:

  • as plataformas de financiamento coletivo, como o Catarse (financiamento de projetos) ou o Impulso (financiamento de negócios).
  • o filme-documentário por uma Educação diferente, em formato livre, La Educación Prohibida, financiado coletivamente.
  • a plataforma de encontros inspiradores Nos.vc, baseada no fato de que todos temos algo a aprender e algo a ensinar.

Tais exemplos provam o quão madura a população é capaz de ser, em oposição a quem acredita que pagar corretamente seus impostos é o melhor que se pode fazer. Acreditar no simples pagamento de imposto ao governo como única forma possível de cumprir na plenitude seu papel social é uma maneira confortável e ultrapassada de viver no cada-um-por-si.

Leia: Onde estão os líderes?

Progresso social envolve cultura, tecnologia, educação, diversão e tudo mais que promova a confiança entre pessoas e grupos através das relações que eles são capazes de construir, utilizando-se do princípio da interdependência.

Progresso social envolve tudo que promova a confiança entre pessoas e grupos através das relações que eles são capazes de construir, utilizando-se do princípio da interdependência.

Graças à internet, que nos aproxima, o mundo está mudando. Rápido. Acompanhe alguns outros protagonistas dessas mudanças:

  • Cidades para Pessoas – um projeto jornalístico que busca, pelo mundo, boas práticas e ideias para melhorar as cidades para seus moradores.
  • Net Impact: rede de impacto positivo que busca educar, conectar e inspirar pessoas nos valores da sustentabilidade nos negócios. Página do Face.
  • Engage – focada em desenvolvimento de software para engajamento. Desenvolvem as soluções ideais de engajamento para cada comunidade, diminuindo a lacuna entre a intenção e a ação. Página do Face.
  • Estaleiro Liberdade – uma escola para quem quer ser livre e reconectar-se com seu sonho. Um ambiente acolhedor e de aprendizado mútuo voltado a pessoas que querem muito mais do que apenas um emprego, e sim desenvolver projetos que gerem impacto positivo na sua comunidade ou no mundo. Página do Face.
  • Benfeitoria – plataforma criada para dar vida a ideias transformadoras, gerando uma rede composta por agentes de mudança e de esforço coletivo, em prol de uma nova economia baseada na cultura da colaboração e compartilhamento. Página do Face.
  • Cria Global – cria, descobre, desenvolve e implementa negócios de valor compartilhado. Procura acelerar o desenvolvimento dos modelos sociais, consciente de que o mundo é interdependente e está em constante evolução. Página do Face.
  • Substantiva – escola de convivência para quem não separa trabalho e vida pessoal, e sim busca um desenvolvimento integral. Página do Face.
  • Shoot The Shit – organização de projetos e ações locais com impacto global. Página do Face.
  • PortoAlegre.cc – espaço de colaboração cidadã, onde você pode conhecer, debater, inspirar e transformar a cidade de Porto Alegre. Página do Face.
  • Blog PortoImagem – espaço de deliberação pública em assuntos relacionados à arquitetura, urbanismo e mobilidade urbana de Porto Alegre. Página do Face.

De fato, “podemos alcançar uma nova era de promessas cumpridas se todos nós nos envolvermos”. Quem diz isso é Don Tapscott, no vídeo abaixo, extremamente representativo das mudanças pelas quais já estamos passando. Basta você se envolver. Basta você se engajar.

Leia: Os políticos somos nós

“Podemos alcançar uma nova era de promessas cumpridas se todos nós nos envolvermos”:


“Não estamos apenas estudando a História do homem, estamos moldando-a” [2].

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Inspiração:

Clay Shirky – Future Transformations

Referências:

[1] Don Tapscott – Macrowikinomics: novas soluções para um planeta conectado

[2] Invisible Children – Kony 2012

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Textos relacionados:

Onde estão os líderes?

Independência não existe

Os políticos somos nós

Comunicação de mão dupla – valorizando as pessoas

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Onde estão os líderes?


Resumo: você trabalha vivendo ou vive trabalhando? Você se sente importante ou dispensável? Você é escutado ou barrado? Você se sente inspirado ou expirado? Você cansa ou se estressa? Você realiza ou obedece? Você é liderado ou chefiado? Você trabalha com o propósito de gerar valor socialmente útil ou apenas como uma ferramenta de gerar valor financeiro?

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Marco Leonardelli Lovatto

Se você não está cultivando o próprio alimento, é porque alguém está fazendo isso por você. O trabalho é fundamental à vida. Mas você deseja viver trabalhando ou, quem sabe, trabalhar vivendo? O que está dentro de ti, hoje?

É verdade que nós só precisamos de dinheiro porque os outros também precisam. Mas, se você não precisasse de dinheiro, o que você faria para nós?

No trabalho, nos estudos e perante à sociedade, você escolheu ou foi escolhido? Você se sente importante ou dispensável? Você é escutado ou barrado? Você se sente inspirado ou expirado? Você cansa ou se estressa? Você realiza ou obedece? Você é liderado ou chefiado? Se sua resposta for sempre a segunda, cuidado: você não vive numa democracia.

Estou falando de uma completa desordem de valores, onde o dinheiro é o maior condutor das decisões humanas e, claro, da persuasão [1]. “Hoje, vivemos numa democracia”. Óbvio? Não, porque está errado. Vivemos num sistema onde o verdadeiro poder sempre foi financeiro, em oposição ao poder de inspirar ações com propósito.

Leia: Nem direita, nem esquerda: você mesmo

Cuidado com o óbvio. “É uma âncora que paralisa o pensamento e induz à falsidade, à distorção, ao erro” [2].

Algumas das grandes e antigas corporações foram construídas em valores militares herdados das guerras mundiais. Daí vem as palavras “missão” e “recrutamento”. Tais grupos não lhe querem trabalhando com elas, mas para elas. Salvo algumas exceções, não há interesse por pessoas inovadoras: elas querem trabalhadores obedientes. Portanto, se você acha que essas grandes e antigas empresas corporocráticas estão tentando contratar as pessoas mais bem informadas, perceptivas e criativas, desculpe-me em desapontá-lo.

Algumas das grandes e antigas corporações foram construídas em valores militares herdados das guerras mundiais, buscando trabalhadores obedientes.

A maioria dessas corporações mantém uma estrutura organizacional verticalizada e de comunicação unidirecional, de cima para baixo, sem que os cargos inferiores sejam prontamente ouvidos pelos superiores. Tudo para manter o status quo financeiro do cargo, onde o chefe está lá, preso à hierarquia, muito mais por ser alguém capaz de fazer dinheiro do que alguém capaz de inspirar pessoas.

Ali, o que se quer são pessoas suficientemente capazes de conduzir as tarefas determinadas pelo alto da hierarquia e ingênuas o suficiente para aceitar passivamente toda essa dominação tradicional. É uma dominação legítima que transforma o trabalhador numa ferramenta de gerar valor financeiro – para o grupo ou para si mesmo -, ao invés de num ator integrado que entenda o verdadeiro propósito de sua obra: gerar um valor socialmente útil.

É muito comum os trabalhadores sentirem-se uma ferramenta de gerar valor financeiro, ao invés de um ator integrado que entenda o verdadeiro propósito de sua obra.

Leia: Comunicação de mão dupla – valorizando as pessoas

De fato, há muitos chefes que não são líderes, porque não inspiram. Acreditam no dinheiro como o fundamento da sobrevivência própria e da corporação e que, através dele, pode-se ser independente. Entretanto, num mundo onde a maioria das pessoas não cultiva o próprio alimento, podemos mesmo ser “independentes”? Uma pessoa ou um grupo pode se auto-organizar, se auto-administrar, mas jamais será independente. Em sociedade, nós somos, na verdade, interdependentes.

Leia: Independência não existe

Se você acha, também, que práticas incorretas e as notícias ruins que vemos no jornal, rádio e televisão são exceções frente a um mundo baseado em valores humanos, triste ilusão. Basta discutir com alguns consultores de negócios – daqueles que acreditam no dinheiro como a solução para tudo – e você vai descobrir: planejar os passos sumariamente pisando nos desatentos não passa de negócios como de costume.

Planejar os passos sumariamente pisando nos desatentos não é a exceção de um mundo baseado em valores humanos. Tristemente, não passa de negócios como de costume.

O mesmo acontece na esfera da política partidária e instituições governamentais no mundo inteiro. Incorretamente, a “culpa” acaba caindo apenas nessa esfera devido ao poder da mídia tradicional, que frequentemente quer proteger seus interesses e não necessariamente as verdadeiras necessidades do seu público-alvo. Qual empresa de jornal, rádio ou televisão você conhece que utiliza a internet como canal eficiente para constante discussão com os cidadãos sobre aquilo que é noticiado, de forma aberta e amplamente visível a todos? No Brasil, não conheço nenhuma.

Incorretamente, a “culpa” acaba caindo apenas na esfera da política partidária e instituições governamentais devido ao poder da mídia tradicional.

Leia: A maioria não é modelo de sucesso

A grande maioria das pessoas no mundo sabe o que faz. Algumas sabem como fazem. Poucas, muito poucas, sabem porque fazem algo que não é pelo dinheiro [3]. São pessoas que, mesmo não precisando de dinheiro, continuariam trabalhando. É gente que tem um propósito de trabalho ligado à sua paixão e em nome da qualidade de vida coletiva. Gente que não está presa a espécie alguma de hierarquia, sendo verdadeiros líderes ou verdadeiros liderados, inspirados, e não expirados. Um trabalho que cansa, mas não estressa, pois se conhece o propósito, o resultado, aonde se quer chegar: o horizonte.

Felizmente, não há evidência alguma mostrando que os valores tradicionais e práticas comuns da atualidade serão relevantes amanhã [1]. E, para lhe dar a certeza de que nós não estamos apenas estudando a História do homem, mas também a moldando, lhe convido a ler o próximo texto: “Nem direita, nem esquerda: você mesmo”. Ali eu deixo uma série de exemplos de verdadeiros líderes – passando bem longe de Steve Jobs – que estão começando a mudar o mundo, também uma grande esperança à verdadeira democracia.

Felizmente, não há evidência alguma mostrando que os valores tradicionais e práticas comuns da atualidade serão relevantes amanhã [1].

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Inspirações:

George Carlin – The American Dream

Referências:

[1] Peter Joseph – Culture in Decline.

[2] Mario Sergio Cortella, Qual é a tua obra? – Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética, 13ª ed, Petrópolis, Vozes, 2011.

[3] Simon Sinek – Como grandes líderes inspiram ação.

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A crise não é econômica


Resumo: Originalmente, as crises de 1929 e 2008 não foram crises econômicas, e sim financeiras. Afinal, não houve qualquer catástrofe: os recursos naturais, as pessoas e os produtos dos quais dependemos continuavam lá. A verdadeira economia estava intacta, tendo sido prejudicada unicamente pela falta da ferramenta de troca. No entanto, trabalho é o fundo que menos falta.

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Marco Leonardelli Lovatto

Em 1929 e 2008 não houve crise econômica. Naqueles anos, o dinheiro que desapareceu nem sequer existiu, pois não representava valor real de algo que pudéssemos utilizar. Era um valor de mentira: dinheiro inflado por dívidas sobre juros e hipotecas que se tornaram impagáveis. Para quem fez os empréstimos, motivados pelo lucro dos juros, bastava acreditar que eles seriam pagos para que a produção continuasse circulando.

Para quem emprestou dinheiro, bastava acreditar que ele voltaria para que a produção continuasse circulando.

Mas, de repente, quando se descobriu o rombo financeiro, decidiu-se que as fábricas deveriam parar e os funcionários deveriam ser demitidos, gerando abalo econômico.

Crise econômica, na sua origem, só ocorre quando há terremoto, tsunami, incêndio, furacão, guerra, epidemia, atentado terrorista… enfim, situações onde há perda de vidas e de potencial de produção, o que afeta, por sua vez, quem conseguiu sobreviver.

Contrariamente a uma verdadeira crise econômica, enquanto George W. Bush fazia seu pronunciamento em 24 de setembro de 2008 anunciando a quebra, as casas de todas as pessoas continuavam lá. Os carros continuavam lá. As pessoas continuavam de roupa. E, se as roupas estivessem sujas, as máquinas de lavar continuavam lá. As plantações estavam repletas de alimento e os mercados repletos de produtos. Tudo exatamente como no dia anterior. Pasme: naquele 24 de setembro, nada foi abduzido por extraterrestres. Todos os produtos que permitiam a sobrevivência, conforto, saúde, diversão e educação das pessoas continuavam lá. Aquilo do qual realmente dependemos permanecia disponível. A verdadeira economia estava intacta.

A crise financeira internacional só tornou-se crise econômica por que as pessoas acreditam que são dependentes das finanças. Entretanto, não dependemos fundamentalmente do dinheiro, e sim das pessoas e dos recursos naturais.

Quando se descobriu a quebra financeira, a verdadeira economia estava intacta. O motivo é que não dependemos fundamentalmente do dinheiro, e sim das pessoas e dos recursos naturais.

Leia: Independência não existe

Mesmo assim, porque o dinheiro desapareceu, de repente muitas pessoas e grupos não tinham mais direito a acessar aquilo que continuava disponível.

Há muito, quem sabe desde sempre, o mundo está imerso numa grande confusão entre a economia e as finanças. São duas coisas distintas: economia (ou economia real) é a circulação de produtos, finanças é a ferramenta que o homem encontrou para organizar essa circulação. É claro que a moeda foi criada com o intuito de se facilitar as trocas, mas devemos considerar normal que sua expansão desproporcional a qualquer natureza, e consequente “falta”, deva impedir tais trocas? Aonde está o problema? Qual a origem dessa “bolha”? Num sistema financeiro desregrado ou no o maior valor dado às finanças sobre aquele dado à economia real, ou seja, às pessoas e recursos naturais de que dependemos?

Qual a origem dessa “bolha”? Num sistema financeiro desregrado ou no o maior valor dado às finanças sobre aquele dado à economia real, ou seja, às pessoas e recursos naturais de que dependemos?

Mario Sergio Cortella [1] diz que momento de crise também é momento de oportunidade. Crise gera dúvida, e não haveria avanço nas ciências, na economia, na humanidade, na vida pessoal, se as pessoas não tivessem dúvida.

É sempre melhor não ter certeza das coisas. É a dúvida que faz o homem avançar, não a certeza. A certeza pode levar ao engano, já a dúvida conduzirá à descoberta. Em 1929 e 2008, todos sentiram falta de fundos financeiros. No entanto, trabalho é o fundo que menos falta.

Trabalho é o fundo que menos falta.

Leia: Comunicação de mão dupla – valorizando as pessoas

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Inspirações:

Le Laboureur et ses Enfants (O Lavrador e Seus Filhos) – fábula de Jean de la Fontaine.

Living on the edge – Elf Pavlik; Waking Up Movie; Peter Joseph – A grande questão.

Referências:

[1] Mario Sergio Cortella, Qual é a tua obra? – Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética, 13ª ed, Petrópolis, Vozes, 2011.

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Conheça nosso propósito e integre-se!

Este texto está sob uma licença livre Creative Commons. Permite-se e incentiva-se a cópia, tradução e adaptação por qualquer meio, desde que para fins não comerciais, mantendo-se essas mesmas condições e fazendo referência ao link original do texto em maodupla.org.

Leia também:

Onde estão os líderes?

Independência não existe

Os políticos somos nós

Comunicação de mão dupla – valorizando as pessoas

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Independência não existe


Resumo: Num mundo onde a maioria das pessoas não cultiva o próprio alimento, podemos mesmo ser “independentes”? Não dependemos fundamentalmente do dinheiro, e sim das pessoas. Todavia, o homem esqueceu-se disso no momento em que inventou a moeda, geradora de um mundo que só ensina a ajudar os outros depois de competir pelo dinheiro.

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Antes de confundir esse texto com uma tendência comunista, recomendo a leitura de “Nem direita, nem esquerda: você mesmo“; ou tão simplesmente da nosso propósito.

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Marco Leonardelli Lovatto

No próximo texto a ser publicado, chamado A crise não é econômica, vou procurar deixar claro que a crise financeira internacional só tornou-se crise econômica porque as pessoas acreditam que são dependentes das finanças.

Entretanto, ninguém come dinheiro. Se hoje você não está plantando, colhendo, criando, abatendo e fazendo a limpeza para recomeçar tudo no dia seguinte é porque alguém está fazendo isso por você. Neste exato momento.

Se hoje você não está plantando, colhendo, criando, abatendo e fazendo a limpeza para recomeçar tudo no dia seguinte é porque alguém está fazendo isso por você.

Imagine que existam apenas três pessoas num vilarejo: um artesão, um fruteiro e um agricultor. O agricultor carrega o único dinheiro que tem com o objetivo de comprar um cobertor do artesão, pois está com frio. O artesão, com o dinheiro que recebeu do agricultor, irá comprar um cacho de bananas do fruteiro, pois está com fome. O fruteiro, por sua vez, com aquele dinheiro, irá pagar o agricultor do início da história por mais um cacho de bananas: o dinheiro voltou à sua origem.

A primeira observação é que ninguém ganhou um tostão e ninguém perdeu um tostão, o que não impediu de os produtos circularem. A segunda observação é, na verdade, uma pergunta: supondo que o agricultor, sem querer, deixe cair o dinheiro num precipício de forma que ele seja irrecuperável, o artesão vai morrer de fome, o agricultor vai morrer de frio e o fruteiro vai deixar de plantar?

A resposta mais fácil é “não, claro que não”. Entretanto, é justamente isso o que aconteceu nas crises de 1929 e 2008: antes de se descobrir o desaparecimento do dinheiro, os produtos dos quais dependemos continuavam existindo. Mesmo assim, porque o dinheiro desapareceu, de repente muitas pessoas e grupos não tinham mais direito a acessar aquilo que continuava disponível.

Leia: A crise não é econômica

Caro leitor, é hora de acordarmos e dar-nos conta de que, em sociedade, independência não existe. Independência financeira não nos torna independentes das pessoas. Vivendo em sociedade, cada um de nós é dependente do que ela produz e, portanto, de todas as pessoas que ela compõe. A história do vilarejo é apenas uma alegoria da sociedade na qual vivemos: interdependente.

Vivendo em sociedade, cada um de nós é dependente do que ela produz e, portanto, de todas as pessoas que ela compõe.

Não é o seu dinheiro que lhe oferece bens e serviços, e sim as pessoas que trabalham por eles. Não serei servido de um prato saboroso num bom restaurante porque posso pagar por isso, mas porque existe alguém capaz de me servir. Por exemplo, o alimento que o restaurante me oferece foi produzido por um agricultor, e o professor que contribuiu para a formação dele está sentado à mesa ao lado. Sem que ninguém no restaurante saiba, eu contribuí para a existência do parque eólico que garante energia elétrica para a família do agricultor. Fiz isso graças à energia alimentar que o restaurante me proporcionou.

Se eu vivo em sociedade, nunca serei independente. Para falar a verdade, nem mesmo financeiramente independente poderei ser. Afinal, o dinheiro que eu ganho não depende apenas do meu trabalho, uma vez que meu trabalho depende do trabalho de outros.

O dinheiro que você ganha não depende apenas do seu trabalho, uma vez que seu trabalho depende do trabalho de outros.

O homem coopera muito mais do que se imagina, e o fato é que sempre cooperou. Ele apenas se esqueceu disso no momento em que inventou a moeda, a tal “mercadoria coringa”, geradora de um mundo onde o homem só é ensinado a ajudar os outros depois de competir pelo dinheiro.

O trabalho deixou de ser visto como uma necessidade e passou a ser visto como um meio. Um meio de se obter conforto. Quanto mais conforto se quer, mais se trabalha e menos interagimos com o cidadão ao lado, porque ele também é egoísta na sua busca por conforto individual. O resultado é que o valor dado ao dinheiro sobrepôs-se ao valor dado às pessoas, gerando uma sociedade competitiva, e não cooperativa, prejudicando cada vez mais as relações de confiança, as únicas que trazem verdadeira qualidade de vida. Entretanto, trabalhar é ajudar, e não há quem tenha sucesso e seja feliz no trabalho sem ter como propósito ajudar os outros.

Trabalhar é ajudar, e não há quem tenha sucesso e seja feliz no trabalho sem ter como propósito ajudar os outros.

As pessoas trabalham por um grupo ou por elas mesmas, e isso todos sabemos. O que muita gente não sabe é que sua obra é muito maior. Sua obra é a sociedade. A pessoa trabalha para a sociedade, que também trabalha para ela.

Não sabemos viver sozinhos. Portanto, está na hora de qualificar as interações e diminuir a ineficiência de se trabalhar separadamente com objetivos semelhantes. Afinal, ninguém tem respostas completas para os problemas que enfrentamos e cada um de nós é ruim na pretensão de ser o melhor [1].

Leia: Os políticos somos nós

Está na hora de qualificar as interações e diminuir a ineficiência de se trabalhar separadamente com objetivos semelhantes.

Luiz Fernando Veríssimo escreveu:  “O mundo é como um espelho que devolve a cada pessoa o reflexo de seus próprios pensamentos”. Muito além de literatura filosófica, é uma observação evidente para quem entende que somos interdependentes. Ser honesto e bom, embora cauteloso num mundo onde não se pode confiar em todos, potencializa o encontro de pessoas com as mesmas inquietações. Por exemplo, a cada palavra dita ou ação feita rumo ao nosso propósito, a sociedade sofre um impacto positivo.  Lento, mas positivo.

Sua integração nos Trilhos de Mão Dupla gera um retorno para você mesmo, mas coletivo, e nada pode ser mais correto que o bem comum.

Como disse Madre Tereza de Calcutá: “O problema com o mundo é que traçamos um círculo muito pequeno para a nossa família”. Na verdade, ele tem 13 mil quilômetros de diâmetro.

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INTERDEPENDÊNCIA ou morte!

001 Ricardo guimaraes from TEDxRio on Vimeo.

Referências:

[1] “Cada um de nós é ruim na pretensão de ser o melhor”. (Pe. Marc Lambret)

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A crise não é econômica

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