A grande incoerência


Resumo: você costuma usufruir gratuitamente de obras facilmente copiáveis, sem autorização dos criadores para tal? A viabilidade de uma ação não significa que sejamos livres para executá-la. Não podemos justificar erros com a desculpa de que existem erros maiores, e esse é o problema em qualquer tipo de corrupção, a qual ocorre nas mais diversas escalas.

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Marco Leonardelli Lovatto

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Wall-E é um criminoso pelas leis canadenses [1].

Vejo inovações a todo momento, desde telefones celulares até músicas e filmes, e concordo: os produtores de obras facilmente copiáveis, especialmente aquelas em formato digital, sofrem de uma grande inércia de adaptação às novas tecnologias de distribuição e compartilhamento. Em contrapartida, vejo também pessoas agindo como se os produtos criados pelo homem tivessem surgido como mágica. Como se não houvesse pessoas por trás, trabalhando. Como se inovação e arte não demandassem esforço algum, mesmo quando ele é natural e feito com paixão.

Vivemos numa sociedade capitalista, onde todos que conheço são incapazes de abrir mão do salário ou do lucro. Ironicamente, são os mesmos que não fazem questão de pagar um tostão sequer aos produtores de softwares e filmes, que trabalharam para nos oferecer tal conforto tecnológico, aprendizado e diversão. Essa é, na minha opinião, a grande incoerência da sociedade onde vivo.

A validade ou não de se copiar obras protegidas por direitos autorais é um assunto que passa completamente batido, pois a cultura (conjunto de crenças e práticas) já absorveu a cópia gratuita de produtos digitais (sem a permissão dos seus criadores) como algo normal. O principal argumento é: “só vou assistir, não tenho fins lucrativos”.

Nada espantoso, afinal a lei brasileira [2] garante esse direito ao cidadão: diz que a cópia não autorizada é crime apenas se houver fins de lucro. No entanto, ao assistirmos um filme, por exemplo, a diversão e o aprendizado resultantes não são também formas de lucro?

O que é o lucro? Lucro pode ser visto como um conceito econômico definido. No entanto, às vezes, temos conceitos excessivamente prontos e que funcionam como uma barreira à compreensão mais profunda, à identificação de problemas e encontro de soluções.

Da maneira mais simples possível, lucro é o resultado do nosso trabalho. O lucro original, e o mais importante, é o alimento: resultado do trabalho de pecuária ou agricultura. Como o trabalho humano tornou-se mais diversificado, o lucro também se tornou mais diversificado. Bens e serviços que nos oferecem segurança, saúde, conforto, educação e diversão são formas diversificadas de lucro. Podemos usufruir dessa diversidade, proporcionada pelo trabalho alheio, porque também temos o nosso trabalho a oferecer aos outros. Então, lucro é tudo o que podemos acessar graças ao nosso trabalho.

Lucro é tudo o que podemos acessar graças ao nosso trabalho. O lucro original, e o mais importante, é o alimento.

Leia: Independência não existe

O dinheiro, na sua concepção original, não passa de uma mera ferramenta que nos permite acessar o que é feito pelo trabalho dos outros. O fato de alguém vender um produto, ao invés de dar de presente, é apenas uma forma de se receber o dinheiro equivalente ao serviço prestado com a finalidade de ter acesso ao trabalho de seus fornecedores e colaboradores, bem como ao trabalho daqueles que podem atender suas necessidades e desejos pessoais (alimentação, moradia, transporte, comunicação, …). O problema surge quando o dinheiro é visto como um objeto a ser ostentado, e não como uma ferramenta:  “os artistas e indústria cinematográfica já têm o suficiente, mas eu não!”.

Leia: Jogo da vida

Imagine que você está em casa assistindo um filme que ganhou de presente. Você está acessando algo criado pelo homem e que não dependeu do seu trabalho. Isso só é possível graças ao trabalho de quem lhe deu o presente. Por outro lado, quando o cidadão não produziu, não ganhou de presente e não pagou por um produto do qual usufrui, então algo está errado: está havendo lucro de conforto, diversão, etc, através do trabalho alheio sem se respeitar a forma de retorno escolhida pelos criadores.

Escrever este texto me consumiu tempo e energia, mas é um presente que lhe dou! Afinal, somos livres. Lhe dou esse presente porque sou livre. Mas… copio uma obra que não me deram de presente porque sou livre? O que é liberdade?

Pra mim, liberdade é poder escolher e fazer o que eu acredito… na condição de respeitar o que os outros escolhem e fazem. Toda liberdade é condicional.

Claro que a tecnologia deveria ser a fonte de soluções, e não de problemas. Acredito que todos queremos uma sociedade inundada de cultura, mas os caminhos para isso devem se encontrar, jamais se opor.

Acredito que todos queremos uma sociedade inundada de cultura, mas os caminhos para isso devem se encontrar, jamais se opor.

Nessa questão, há pelo menos três problemas:

Primeiro, a definição de lucro no senso comum, restrita à moeda, ao invés de tudo aquilo que é resultado do trabalho humano.

Segundo, a dificuldade de adaptação às novas tecnologias por parte dos produtores de obras facilmente copiáveis, especialmente se estas estão em formato digital. Não apenas por parte dos produtores, mas de toda a cadeia de serviços relacionada. Também, não apenas dificuldade de adaptação às novas tecnologias, mas igualmente às novas necessidades e, principalmente, novas expectativas dos usuários.

Os produtores de obras facilmente copiáveis têm dificuldade de adaptação às novas tecnologias, necessidades e, principalmente, às novas expectativas dos usuários.

Terceiro, o fato de que os cidadãos não lembram que a viabilidade de uma ação não significa que sejamos livres para executá-la. E esse é o problema em qualquer tipo de corrupção, a qual ocorre nas mais diversas escalas.

O que parece ser justo nem sempre é o correto.  Por esse motivo, acredito que as mudanças devem vir de pelo menos três instâncias:

  1. Re-conceituação do lucro a tudo o que podemos acessar graças ao nosso trabalho.
  2. Adaptação dos produtores de obras facilmente copiáveis a novos modelos de negócio.
  3. Consciência dos consumidores de que:

           3.1.  A disseminação fácil e gratuita de obras foi permitida pela tecnologia, mas não pelos produtores.

            3.2.  Viabilidade não é sinônimo de liberdade.

            3.3.  Qualquer aquisição que não seja presente é desrespeito à forma de retorno escolhida pelo produtor ou fornecedor.

            3.4. Não podemos justificar erros com a desculpa de que existem erros maiores.

Viabilidade não é sinônimo de liberdade. Não podemos justificar erros com a desculpa de que existem erros maiores.

Eu tenho uma crença pessoal: de que leis não educam, assim como meios de vigilância e de repressão também não. São apenas ferramentas que tentam organizar e remediar uma sociedade que ainda não reconheceu sua interdependência.

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Referências:

[1] WALL-E, a Bill C-61 copyright criminal. Acesso em 12/01/2013.

[2] Lei 10.695 de 01/07/2003 – Dos crimes contra a propriedade intelectual.

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Este texto está sob uma licença livre Creative Commons. Permite-se e incentiva-se a cópia, tradução e adaptação por qualquer meio, desde que para fins não comerciais, mantendo-se essas mesmas condições e fazendo referência ao link original do texto em maodupla.org.

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Os políticos somos nós


Resumo: Nossa sociedade está mergulhada numa angustiante descrença nas instituições representativas, o que é compreensível. Entretanto, é ilusão procurar por pessoas que serão, sozinhas, solucionadoras de problemas. Afinal, quem constrói esse mundo somos nós, com as nossas atitudes.

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Marco Leonardelli Lovatto

Concordo que a existência de corrupção entre os representantes políticos seja um problema gravíssimo. Entretanto, isto é apenas o reflexo do que a própria população tem buscado: escapar de um mundo ineficiente e individualista, priorizando o conforto próprio sem saber diferenciar o que é justo do que é correto.

Corrupção na política é apenas o reflexo do que a própria população tem buscado: o conforto próprio sem saber diferenciar o que é justo do que é correto.

Transparência,  ficha limpa, extinção do voto secreto e extinção da imunidade parlamentar são todos bons caminhos para combater a corrupção na sua forma mais conhecida. Mesmo assim, pedir exímia conduta dos nossos governantes exige modéstia e que coloquemos em dúvida as práticas dos próprios cidadãos.

Perguntamos com frequência: quanto o governo roubou? Mas esquecemos de perguntar: quanto o cidadão não foi correto com alguém, pois tirar vantagem foi exclusivamente o que ele pensou?

Por exemplo: nós, eleitores, não demos aos governantes a liberdade roubar, da mesma forma que muitos autores de obras digitais não nos deram a liberdade de disseminar cópias de seus trabalhos ou de adquiri-las semi-gratuitamente. A aquisição mal-paga de produtos digitais protegidos por direitos autorais está incrustado na nossa cultura desde que a tecnologia passou a permitir. A tecnologia, não os autores das obras.

Nós não demos aos governantes a liberdade roubar, da mesma forma que muitos autores de obras digitais não nos deram a liberdade de disseminar semi-gratuitamente seus trabalhos.

Habitualmente, quem costuma baixar música protegida sem conhecer a fonte da cópia original argumenta que “é até melhor” para o artista, pois é um meio de “marketing gratuito”, promovendo-o em shows e publicidade de marcas. Concordo que disponibilizar músicas gratuitamente poderia até ser uma boa estratégia; no entanto, apenas o artista e o produtor têm o direito de decidir a respeito disso. Quem disse que uma banda deseja fazer grandes turnês mundiais para rentabilizar sua arte? Já falando de download de softwares, filmes e livros,  nem sequer se pode fazer shows com eles.

O cético vai insistir: “os produtores não vão ficar mais pobres, pois já têm o suficiente”. Novamente, cabe unicamente ao produtor fazer tal afirmação. Lembre-se: se você trabalha, você também produz. Você já tem o “suficiente”?

Por um lado, há uma grande resistência das produtoras, editoras e lojas em se adaptarem às novas tecnologias e ao fim das fronteiras no fluxo de informação e de obras digitais, o que ajuda a promover a pirataria. Por outro lado, é muito comum o consumidor confundir liberdade com viabilidade.

O cidadão que deixa de pagar por um produto protegido – e comercializado localmente – não o faz porque ele é livre, mas porque é uma ação viável. Neste caso, eu tenho o pesar de lhe informar, mas o dever de lhe dizer: este cidadão pensou exatamente da mesma forma que os políticos de quem gostamos de reclamar. A apropriação indevida foi considerada viável, possível e, por alguma razão, foi considerada justa.

O cidadão que deixa de pagar por um produto protegido não o faz porque ele é livre, mas porque é uma ação viável, e ele pensou exatamente da mesma forma que os políticos de quem gostamos de reclamar.

Um argumento típico ao se comparar as duas situações é o nível de gravidade, mas ela não elimina a existência de irresponsabilidade, qualquer que seja o caso.

O conforto das pessoas vem dos bens e serviços que elas consomem, e a produção desses produtos consome energia. Portanto, quanto maior o conforto, maior a energia consumida. Esta energia está embutida no valor de todo e qualquer produto, e parte dela é trabalho humano. O cidadão que não paga por um produto protegido, físico ou digital, não está contribuindo para a remuneração das pessoas que trabalharam para lhe oferecer aquele conforto. Portanto, ele  não é correto com o produtor e de forma totalmente análoga a qualquer outra forma de corrupção.

Pergunta-se, então: onde está a tão aclamada “justiça”? É comum ouvir dizer que não precisamos ser justos enquanto somos injustiçados. Seria algo como: “primeiro os governantes deixam de roubar, depois eu me preocupo em declarar todas minhas fontes de renda”. Entretanto, isso é responder ao egoísmo com egoísmo, ao desrespeito com desrespeito: fonte das mais graves ineficiências da sociedade, pois se está retroalimentando um ciclo doente.

Existe uma grande diferença entre ser justo e ser correto. Ser justo é responder em igual natureza e intensidade. Ser correto é responder com sua definição pessoal do que é o bem. Assim, a liberdade de cada um está na escolha entre (1) pisar na vida que te pisa e (2) mostrar o caminho certo para os que te pisam. Quem escolhe o primeiro mostra-se alinhado a uma sociedade extremamente doente, o que não pode ser louvável, pois é sinal de que se está tão doente quanto ela.

Existe uma grande diferença entre ser justo e ser correto. Ser justo é responder em igual natureza e intensidade. Ser correto é responder com sua definição pessoal do que é o bem.

George Carlin, comediante norte-americano, diz: “Os políticos não atravessaram uma membrana vindos de outra dimensão. Eles vieram de famílias americanas, escolas americanas, universidades americanas, empresas americanas… É o que nosso sistema produz: lixo entra, lixo sai”. De fato, a existência de corrupção entre os governantes é tão unicamente o reflexo da própria população, pois todos ainda compartilham do mesmo mundo competitivo e individualista, o que nos leva a priorizar o conforto próprio, custe “quem” custar, sem saber diferenciar o que é justo do que é correto.

Leia: Jogo da Vida

Como gosto de dizer, enquanto todos procurarmos o que é justo, ninguém encontrará o que é correto. Estamos promovendo, sem dar-nos conta, o mesmo mundo ineficiente do qual se quer escapar. Infelizmente, a corrupção é de mão dupla.

Enquanto todos procurarmos o que é justo, ninguém encontrará o que é correto.

Normalmente, preferimos aderir à opinião pública e à forma da maioria agir, pois isso nos dá conforto, já que não precisamos ser ousados. Entretanto, apontar para um criminoso e dizer “esse é um cara mau” não faz de você uma pessoa boa. Principalmente quando o melhor que se sabe fazer é culpar os “políticos” enquanto se esconde sobre diversos andares entre grades e cercas elétricas. Não. Isso definitivamente não nos torna bons.

Apontar para um criminoso e dizer “esse é um cara mau” não faz de você uma pessoa boa.

Cada um de nós é ruim na pretensão de ser o melhor [1] e, se estivéssemos fazendo o melhor, então estaríamos melhores. A maioria não é modelo de sucesso [2] e colocar em dúvida as práticas atuais é a melhor maneira de começar a mudar.

Por enquanto, apenas votar nas eleições é a coisa mais preguiçosa que podemos fazer. Sempre precisaremos de instituições representativas, mas é ilusão procurar por pessoas que serão, sozinhas, solucionadoras de problemas. É hora de quebrar paradigmas: quem constrói esse mundo somos nós, com as nossas atitudes.

 Os políticos somos nós.

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[1] Frase inspiradora de Pe. Marc Lambret.

[2] Frase inspiradora de Roberto Shinyashiki.

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Conheça nosso propósito e integre-se!

Este texto está sob uma licença livre Creative Commons. Permite-se e incentiva-se a cópia, tradução e adaptação por qualquer meio, desde que para fins não comerciais, mantendo-se essas mesmas condições e fazendo referência ao link original do texto em maodupla.org.

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