A crise não é econômica


Resumo: Originalmente, as crises de 1929 e 2008 não foram crises econômicas, e sim financeiras. Afinal, não houve qualquer catástrofe: os recursos naturais, as pessoas e os produtos dos quais dependemos continuavam lá. A verdadeira economia estava intacta, tendo sido prejudicada unicamente pela falta da ferramenta de troca. No entanto, trabalho é o fundo que menos falta.

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Marco Leonardelli Lovatto

Em 1929 e 2008 não houve crise econômica. Naqueles anos, o dinheiro que desapareceu nem sequer existiu, pois não representava valor real de algo que pudéssemos utilizar. Era um valor de mentira: dinheiro inflado por dívidas sobre juros e hipotecas que se tornaram impagáveis. Para quem fez os empréstimos, motivados pelo lucro dos juros, bastava acreditar que eles seriam pagos para que a produção continuasse circulando.

Para quem emprestou dinheiro, bastava acreditar que ele voltaria para que a produção continuasse circulando.

Mas, de repente, quando se descobriu o rombo financeiro, decidiu-se que as fábricas deveriam parar e os funcionários deveriam ser demitidos, gerando abalo econômico.

Crise econômica, na sua origem, só ocorre quando há terremoto, tsunami, incêndio, furacão, guerra, epidemia, atentado terrorista… enfim, situações onde há perda de vidas e de potencial de produção, o que afeta, por sua vez, quem conseguiu sobreviver.

Contrariamente a uma verdadeira crise econômica, enquanto George W. Bush fazia seu pronunciamento em 24 de setembro de 2008 anunciando a quebra, as casas de todas as pessoas continuavam lá. Os carros continuavam lá. As pessoas continuavam de roupa. E, se as roupas estivessem sujas, as máquinas de lavar continuavam lá. As plantações estavam repletas de alimento e os mercados repletos de produtos. Tudo exatamente como no dia anterior. Pasme: naquele 24 de setembro, nada foi abduzido por extraterrestres. Todos os produtos que permitiam a sobrevivência, conforto, saúde, diversão e educação das pessoas continuavam lá. Aquilo do qual realmente dependemos permanecia disponível. A verdadeira economia estava intacta.

A crise financeira internacional só tornou-se crise econômica por que as pessoas acreditam que são dependentes das finanças. Entretanto, não dependemos fundamentalmente do dinheiro, e sim das pessoas e dos recursos naturais.

Quando se descobriu a quebra financeira, a verdadeira economia estava intacta. O motivo é que não dependemos fundamentalmente do dinheiro, e sim das pessoas e dos recursos naturais.

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Mesmo assim, porque o dinheiro desapareceu, de repente muitas pessoas e grupos não tinham mais direito a acessar aquilo que continuava disponível.

Há muito, quem sabe desde sempre, o mundo está imerso numa grande confusão entre a economia e as finanças. São duas coisas distintas: economia (ou economia real) é a circulação de produtos, finanças é a ferramenta que o homem encontrou para organizar essa circulação. É claro que a moeda foi criada com o intuito de se facilitar as trocas, mas devemos considerar normal que sua expansão desproporcional a qualquer natureza, e consequente “falta”, deva impedir tais trocas? Aonde está o problema? Qual a origem dessa “bolha”? Num sistema financeiro desregrado ou no o maior valor dado às finanças sobre aquele dado à economia real, ou seja, às pessoas e recursos naturais de que dependemos?

Qual a origem dessa “bolha”? Num sistema financeiro desregrado ou no o maior valor dado às finanças sobre aquele dado à economia real, ou seja, às pessoas e recursos naturais de que dependemos?

Mario Sergio Cortella [1] diz que momento de crise também é momento de oportunidade. Crise gera dúvida, e não haveria avanço nas ciências, na economia, na humanidade, na vida pessoal, se as pessoas não tivessem dúvida.

É sempre melhor não ter certeza das coisas. É a dúvida que faz o homem avançar, não a certeza. A certeza pode levar ao engano, já a dúvida conduzirá à descoberta. Em 1929 e 2008, todos sentiram falta de fundos financeiros. No entanto, trabalho é o fundo que menos falta.

Trabalho é o fundo que menos falta.

Leia: Comunicação de mão dupla – valorizando as pessoas

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Inspirações:

Le Laboureur et ses Enfants (O Lavrador e Seus Filhos) – fábula de Jean de la Fontaine.

Living on the edge – Elf Pavlik; Waking Up Movie; Peter Joseph – A grande questão.

Referências:

[1] Mario Sergio Cortella, Qual é a tua obra? – Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética, 13ª ed, Petrópolis, Vozes, 2011.

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Comunicação de mão dupla – valorizando as pessoas


Resumo: Funcionários que não são ouvidos pelos seus empregadores possivelmente não verão a importância do seu trabalho reconhecida, o que conduz à falta de motivação e baixa produtividade. Ultrapassando a desigualdade de oportunidades de Ensino e Educação, a construção de uma ponte entre o patrão e o empregado, de comunicação bidirecional, é fonte de compreensão mútua e convergência de objetivos numa necessidade produtiva unânime, solidificando a base de qualquer grupo.

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Marco Leonardelli Lovatto

LeaderMuitas organizações ainda insistem numa via de comunicação unidirecional, dos administradores aos empregados, sem que os últimos sejam ouvidos. Esse sistema, que tenta inverter a pirâmide hierárquica como se a ponta fosse sua base, apenas gera instabilidade. Entretanto, a construção de uma ponte entre o patrão e o empregado, de comunicação bidirecional, é fonte de compreensão mútua e convergência de objetivos numa necessidade produtiva unânime, solidificando a base de qualquer grupo.

Minha intenção certamente não é de propor soluções infalíveis, mas mais modestamente de apresentar uma simples teoria, onde a crise internacional é muito mais que econômica: é uma crise de reconhecimento.

Uma vez li no site de uma grande empresa: “É impossível atingir a excelência nos resultados financeiros, de produtividade e de tecnologia sem valorizar as pessoas. […] Empregados motivados contribuem espontaneamente e comprometem-se com o bom desempenho e com os resultados organizacionais”.

Toda sociedade é composta por empregados/colaboradores, a base, o pedestal da pirâmide hierárquica. Então, o administrador, no topo, deveria ser o responsável não somente por seu produto, mas também por seus funcionários.

A responsabilidade do administrador é de harmonizar o grupo, rumo a uma necessidade produtiva unânime. Todavia, as necessidades não irão passar de interesses conflitantes enquanto a informação trafegar num único sentido: dos gestores aos empregados, sem que os últimos sejam ouvidos. Assim, os assalariados possivelmente não verão a importância do seu trabalho reconhecida, o que conduz à falta de motivação e baixa produtividade.

Funcionários que não são ouvidos pelos seus empregadores possivelmente não verão a importância do seu trabalho reconhecida, o que conduz à falta de motivação e baixa produtividade.

Esse sistema, chamado de via de comunicação unidirecional, é muito instável. Incrivelmente, ele persiste em numerosos estabelecimentos, onde as necessidades do funcionário acabam por se resumir nos direitos trabalhistas.

A melhor empresa para trabalhar não é aquela que promete salubridade, cargos e salários elevados. O empregado não deve esperar ter um plano de carreira colado no seu mural, da mesma maneira que o administrador não pode esperar ter um funcionário para sempre. Seja o administrador ou o empregado, nenhum deles deve esperar uma recompensa maior que a certeza de estar cumprindo com suas responsabilidades, certeza que vem do reconhecimento do papel da cada um. Quando o empregador torna-se não apenas um chefe, mas um líder para seu empregado, é bem provável que este trabalhe com gratidão e seja visto como indispensável pelo empregador.

Quando o empregador torna-se um líder para seu empregado, é bem provável que  este trabalhe com gratidão e seja visto como indispensável pelo empregador.

No momento do recrutamento, empregado e empregador não compartilham, geralmente, de objetivos em comum. De fato, eles não se conhecem. O empregado motivado quer a opinião de seu superior, e espera o seu apoio. No entanto, é possível que o gestor não mostre disponibilidade, pois acredita que a pró-atividade de seus empregados é automática e a única fonte de produtividade. Na verdade, a construção de uma ponte é muito importante e apenas o empregador pode colocar a primeira pedra: aquela de uma via de comunicação bidirecional, de mão dupla, fonte de reconhecimento e compreensão mútua.

A tarefa mais difícil é aquela do presidente. Ele deve motivar todos, sem que haja alguém acima que o motive. Se ele não vê uma utilidade nobre para seu trabalho, onde o dinheiro é a única recompensa, torna-se impossível motivar seus funcionários. Ora, se a organização passa ao empregado a sensação de que ele é dispensável, dependendo do ramo, é muito provável que a organização também seja dispensável para o empregado [2]. Resultado: crise, revoltas e falência.

Se a organização passa ao empregado a sensação de que ele é dispensável, dependendo do ramo, é muito provável que a organização também seja dispensável para o empregado [2].

É difícil dizer para alguém fazer algo que não se quer [3]. Então, não espere de uma pessoa aquilo que ela não pode dar. Mario Sergio Cortella, professor e filósofo, diz [4] que há uma enorme diferença de atitude e de postura entre vigiar e supervisionar. Vigiar é uma atitude passiva, à distância e desconfiada. Supervisionar é uma ação ativa, próxima e segura. “Quem dá uma festa supervisiona seus convidados, não os vigia”. Da mesma forma no trabalho: não se deve vigiar os funcionários, mas supervisioná-los, guardando uma atitude ativa, próxima e confiante que os motivará cada vez mais.

Quando um empregado é formado de maneira contínua por seu responsável, surge a percepção de pertencimento à história, ao contexto e ao funcionamento da organização. O assalariado terá, então, uma enorme capacidade de identificar as necessidades, que serão automaticamente ligadas aos objetivos daqueles que o empregaram. Como consequência, ele não apenas espera seu salário mensal, mas também se sente parte integrante de uma sociedade com um objetivo em comum. Por sua vez, o gestor ouve seu funcionário e reconhece, assim, mais facilmente as prioridades entre as necessidades.

Infelizmente, essa teoria não é infalível, mesmo com o melhor administrador do mundo, pois o bom senso das pessoas depende das oportunidades de aprendizado de cada um. Geralmente sabemos o que buscamos, mas nem todas as pessoas fazem o que elas querem: muitas fazem o que conseguem fazer.

Leia: A maioria não é modelo de sucesso

Infelizmente, essa teoria não é infalível, pois o bom senso das pessoas depende das oportunidades de aprendizado de cada um.

Ultrapassando a desigualdade de oportunidades de Ensino e Educação, com uma via de comunicação bidirecional, a tarefa de harmonizar as necessidades da organização e dos colaboradores torna-se incomparavelmente mais fácil. Terminamos por lembrar, então, do trecho no início deste texto: “É impossível atingir a excelência nos resultados financeiros, de produtividade e de tecnologia sem valorizar as pessoas”.

Na esfera das políticas públicas, as responsabilidades são sempre com as pessoas: físicas e jurídicas; e o objetivo também é a harmonia: deles e entre eles. Portanto, a ideia de comunicação bidirecional deveria ser igualmente válida.

E por que não em casa? Na família, nos esportes, entre os amigos? Enfim, em qualquer tipo de relação?

Aplique-a. A comunicação de mão dupla é construtiva para todos, fonte de acessibilidade, de colaboração e de compreensão mútuas. Em seguida, de produtividade, estabilidade e progresso.

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[2] Mario Sergio Cortella. Qual é a tua obra? – Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. 13ª Edição. Editora Vozes. 2011.

[3] Thomas Philippon. Le capitalisme d’héritiers – La crise française du travail. Seuil. 2007.

[4] Mario Sergio Cortella. Viver em paz para morrer em paz (paixão, sentido e felicidade). Coleção O que a Vida me Ensinou. Editora Saraiva. 2009.

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Este texto está sob uma licença livre Creative Commons. Permite-se e incentiva-se a cópia, tradução e adaptação por qualquer meio, desde que para fins não comerciais, mantendo-se essas mesmas condições e fazendo referência ao link original do texto em maodupla.org.

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