Jogo da Vida


Resumo: Transformar a vida num jogo repleto de etapas, buscando por títulos, posses e cargos, apenas nos manterá correndo. Enquanto a felicidade estiver sempre na etapa seguinte, por mais que joguemos, é grande o risco da ambição transformar-se em ganância e de perdermos a nossa essência única.

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Marco Leonardelli Lovatto

Este texto pode ser considerado como obra derivada dos textos originais Viver Trabalhando ou Trabalhar Vivendo? e Felicidade Hoje, de Victor Hugo Reimann.

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Recentemente, deparei-me com o Jogo da Vida, da Estrela, destinado a crianças. É um jogo individual onde temos um caminho com diversas etapas a ser percorrido. Apenas um jogador ganha e todos os outros perdem. O objetivo final: tornar-se um milionário.

É verdade que todas as nossas relações econômicas giram em torno das finanças, onde o dinheiro é a ferramenta que nos dá direito a acessar aquilo que é produzido pelo trabalho dos outros. Por outro lado, ensinar às crianças que a vida resume-se a competir pelo dinheiro, conquistas e posses é algo com o qual não compactuo.

Um milionário pode ser também uma pessoa carente. Acredito que as comunidades mais carentes são aquelas que carecem de satisfação. Que carecem de sorriso, integração e confiança entre as pessoas desconhecidas, algo extremamente frequente nas classes ricas. São pessoas que tiveram boas oportunidades de ensino, inclusive sobre como o dinheiro é importante. Entre elas, todavia, há pessoas que não trabalham vivendo, mas vivem trabalhando, como se a vida fosse um jogo a ser ganho sobre os outros. No fim do dia voltam para casa, um refúgio cercado por grades, câmeras e cercas elétricas, onde não se conhece o nome do vizinho de baixo. Preocupam-se com o futuro e com as coisas que ainda conquistarão. Nos momentos de folga, precisam compensar o trabalho duro. Compram e compram, tentando preencher o vazio e dar significado a alguma coisa.

Nos momentos de folga, precisam compensar o trabalho duro. Compram e compram, tentando preencher o vazio e dar significado a alguma coisa.

Com efeito, os jovens estão sendo incentivados a estudar cada vez mais para aumentarem suas chances de qualificações em nível superior e além, com o objetivo de terem mais chances de conquistarem uma posição de trabalho que lhes garanta boa remuneração financeira. Mas… e a remuneração da alma? E aquilo que você ama fazer, mas desperdiça o seu tempo com o que lhe disseram que “deve” ser feito?

Pense na sua Educação: o que você é incentivado a criar? Ela está fazendo aflorar seu potencial individual numa rotina de inspiração, ou apenas produzindo mão-de-obra a ser comprada pelo mercado de trabalho? De todo o conhecimento absorvido daquilo que se “deve” saber, o quanto dele você pode converter em aplicação prática, agora?

Sua Educação está fazendo aflorar seu potencial individual numa rotina de inspiração, ou apenas produzindo mão-de-obra a ser comprada pelo mercado de trabalho?

Pobre é a pessoa insatisfeita. Transformar a vida num jogo repleto de etapas, buscando por títulos, posses e cargos, apenas nos manterá correndo. Enquanto a felicidade estiver sempre na etapa seguinte, por mais que joguemos, é grande o risco da ambição transformar-se em ganância e de perdermos a nossa essência única. “Isso acontece com todos nós quando pisamos demais no acelerador e entramos numa rotina sem reflexão” [1]. Como alternativa, podemos dedicar-nos ao nosso potencial, àquilo que sempre gostamos e à maneira que sempre preferimos fazer, para fazer cada vez mais e melhor. Essa é a remuneração da alma, e que ninguém pode comprar.

Enquanto a felicidade estiver sempre na etapa seguinte,  é grande o risco da ambição transformar-se em ganância e de perdermos a nossa essência única.

Entendo o Jogo da Vida como uma iniciativa de aproximar as crianças do mundo como ele funciona, mas acaba distanciando-as de como ele já está começando a funcionar: um novo mundo construído por pessoas que valorizam seu próprio potencial, através de relações livres onde todos ganham.

Podemos ser livres e felizes agora, hoje. Se ficarmos a vida toda correndo atrás de etapas e sonhos de consumo, teremos desperdiçado uma valiosa existência.

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Referências:

[1] William P. Young, autor dos best-sellers A Cabana (2007) e A Travessia (2012), em sua entrevista à revista ÉPOCA, de 19 de novembro de 2012.

Inspirações:

Estaleiro Liberdade.

– Filmes Click (2006), Como Estrelas na Terra (2007) e 3 Idiotas (2009). Os dois últimos não são comercializados no Brasil.

– Textos Viver Trabalhando ou Trabalhar Vivendo? e Felicidade Hoje, de Victor Hugo Reimann.

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Este texto está sob uma licença livre Creative Commons. Permite-se e incentiva-se a cópia, tradução e adaptação por qualquer meio, desde que para fins não comerciais, mantendo-se essas mesmas condições e fazendo referência ao link original do texto em maodupla.org.

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2 pensamentos sobre “Jogo da Vida

  1. Q 10 isso! Li pelo e-mail, no pelo Face, ok? Posso copiar o q segue no meu Face? Abs

    by Marco Leonardelli Lovatto

    Transformar a vida num jogo repleto de etapas, buscando por ttulos, posses e cargos, apenas nos manter correndo. Enquanto a felicidade estiver sempre na etapa seguinte, por mais que joguemos, grande o risco da ambio transformar-se em ganncia e de perdermos a nossa essncia nica.

    Date: Sun, 13 Jan 2013 00:56:21 +0000 To: glauciamarchesan@hotmail.com

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