Independência não existe


Resumo: Num mundo onde a maioria das pessoas não cultiva o próprio alimento, podemos mesmo ser “independentes”? Não dependemos fundamentalmente do dinheiro, e sim das pessoas. Todavia, o homem esqueceu-se disso no momento em que inventou a moeda, geradora de um mundo que só ensina a ajudar os outros depois de competir pelo dinheiro.

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Antes de confundir esse texto com uma tendência comunista, recomendo a leitura de “Nem direita, nem esquerda: você mesmo“; ou tão simplesmente da nosso propósito.

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Marco Leonardelli Lovatto

No próximo texto a ser publicado, chamado A crise não é econômica, vou procurar deixar claro que a crise financeira internacional só tornou-se crise econômica porque as pessoas acreditam que são dependentes das finanças.

Entretanto, ninguém come dinheiro. Se hoje você não está plantando, colhendo, criando, abatendo e fazendo a limpeza para recomeçar tudo no dia seguinte é porque alguém está fazendo isso por você. Neste exato momento.

Se hoje você não está plantando, colhendo, criando, abatendo e fazendo a limpeza para recomeçar tudo no dia seguinte é porque alguém está fazendo isso por você.

Imagine que existam apenas três pessoas num vilarejo: um artesão, um fruteiro e um agricultor. O agricultor carrega o único dinheiro que tem com o objetivo de comprar um cobertor do artesão, pois está com frio. O artesão, com o dinheiro que recebeu do agricultor, irá comprar um cacho de bananas do fruteiro, pois está com fome. O fruteiro, por sua vez, com aquele dinheiro, irá pagar o agricultor do início da história por mais um cacho de bananas: o dinheiro voltou à sua origem.

A primeira observação é que ninguém ganhou um tostão e ninguém perdeu um tostão, o que não impediu de os produtos circularem. A segunda observação é, na verdade, uma pergunta: supondo que o agricultor, sem querer, deixe cair o dinheiro num precipício de forma que ele seja irrecuperável, o artesão vai morrer de fome, o agricultor vai morrer de frio e o fruteiro vai deixar de plantar?

A resposta mais fácil é “não, claro que não”. Entretanto, é justamente isso o que aconteceu nas crises de 1929 e 2008: antes de se descobrir o desaparecimento do dinheiro, os produtos dos quais dependemos continuavam existindo. Mesmo assim, porque o dinheiro desapareceu, de repente muitas pessoas e grupos não tinham mais direito a acessar aquilo que continuava disponível.

Leia: A crise não é econômica

Caro leitor, é hora de acordarmos e dar-nos conta de que, em sociedade, independência não existe. Independência financeira não nos torna independentes das pessoas. Vivendo em sociedade, cada um de nós é dependente do que ela produz e, portanto, de todas as pessoas que ela compõe. A história do vilarejo é apenas uma alegoria da sociedade na qual vivemos: interdependente.

Vivendo em sociedade, cada um de nós é dependente do que ela produz e, portanto, de todas as pessoas que ela compõe.

Não é o seu dinheiro que lhe oferece bens e serviços, e sim as pessoas que trabalham por eles. Não serei servido de um prato saboroso num bom restaurante porque posso pagar por isso, mas porque existe alguém capaz de me servir. Por exemplo, o alimento que o restaurante me oferece foi produzido por um agricultor, e o professor que contribuiu para a formação dele está sentado à mesa ao lado. Sem que ninguém no restaurante saiba, eu contribuí para a existência do parque eólico que garante energia elétrica para a família do agricultor. Fiz isso graças à energia alimentar que o restaurante me proporcionou.

Se eu vivo em sociedade, nunca serei independente. Para falar a verdade, nem mesmo financeiramente independente poderei ser. Afinal, o dinheiro que eu ganho não depende apenas do meu trabalho, uma vez que meu trabalho depende do trabalho de outros.

O dinheiro que você ganha não depende apenas do seu trabalho, uma vez que seu trabalho depende do trabalho de outros.

O homem coopera muito mais do que se imagina, e o fato é que sempre cooperou. Ele apenas se esqueceu disso no momento em que inventou a moeda, a tal “mercadoria coringa”, geradora de um mundo onde o homem só é ensinado a ajudar os outros depois de competir pelo dinheiro.

O trabalho deixou de ser visto como uma necessidade e passou a ser visto como um meio. Um meio de se obter conforto. Quanto mais conforto se quer, mais se trabalha e menos interagimos com o cidadão ao lado, porque ele também é egoísta na sua busca por conforto individual. O resultado é que o valor dado ao dinheiro sobrepôs-se ao valor dado às pessoas, gerando uma sociedade competitiva, e não cooperativa, prejudicando cada vez mais as relações de confiança, as únicas que trazem verdadeira qualidade de vida. Entretanto, trabalhar é ajudar, e não há quem tenha sucesso e seja feliz no trabalho sem ter como propósito ajudar os outros.

Trabalhar é ajudar, e não há quem tenha sucesso e seja feliz no trabalho sem ter como propósito ajudar os outros.

As pessoas trabalham por um grupo ou por elas mesmas, e isso todos sabemos. O que muita gente não sabe é que sua obra é muito maior. Sua obra é a sociedade. A pessoa trabalha para a sociedade, que também trabalha para ela.

Não sabemos viver sozinhos. Portanto, está na hora de qualificar as interações e diminuir a ineficiência de se trabalhar separadamente com objetivos semelhantes. Afinal, ninguém tem respostas completas para os problemas que enfrentamos e cada um de nós é ruim na pretensão de ser o melhor [1].

Leia: Os políticos somos nós

Está na hora de qualificar as interações e diminuir a ineficiência de se trabalhar separadamente com objetivos semelhantes.

Luiz Fernando Veríssimo escreveu:  “O mundo é como um espelho que devolve a cada pessoa o reflexo de seus próprios pensamentos”. Muito além de literatura filosófica, é uma observação evidente para quem entende que somos interdependentes. Ser honesto e bom, embora cauteloso num mundo onde não se pode confiar em todos, potencializa o encontro de pessoas com as mesmas inquietações. Por exemplo, a cada palavra dita ou ação feita rumo ao nosso propósito, a sociedade sofre um impacto positivo.  Lento, mas positivo.

Sua integração nos Trilhos de Mão Dupla gera um retorno para você mesmo, mas coletivo, e nada pode ser mais correto que o bem comum.

Como disse Madre Tereza de Calcutá: “O problema com o mundo é que traçamos um círculo muito pequeno para a nossa família”. Na verdade, ele tem 13 mil quilômetros de diâmetro.

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INTERDEPENDÊNCIA ou morte!

001 Ricardo guimaraes from TEDxRio on Vimeo.

Referências:

[1] “Cada um de nós é ruim na pretensão de ser o melhor”. (Pe. Marc Lambret)

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Conheça nosso propósito e integre-se!

Este texto está sob uma licença livre Creative Commons. Permite-se e incentiva-se a cópia, tradução e adaptação por qualquer meio, desde que para fins não comerciais, mantendo-se essas mesmas condições e fazendo referência ao link original do texto em maodupla.org.

Leia também:

A crise não é econômica

Os políticos somos nós

A maioria não é modelo de sucesso

Comunicação de mão dupla – valorizando as pessoas

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