Os políticos somos nós


Resumo: Nossa sociedade está mergulhada numa angustiante descrença nas instituições representativas, o que é compreensível. Entretanto, é ilusão procurar por pessoas que serão, sozinhas, solucionadoras de problemas. Afinal, quem constrói esse mundo somos nós, com as nossas atitudes.

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Marco Leonardelli Lovatto

Concordo que a existência de corrupção entre os representantes políticos seja um problema gravíssimo. Entretanto, isto é apenas o reflexo do que a própria população tem buscado: escapar de um mundo ineficiente e individualista, priorizando o conforto próprio sem saber diferenciar o que é justo do que é correto.

Corrupção na política é apenas o reflexo do que a própria população tem buscado: o conforto próprio sem saber diferenciar o que é justo do que é correto.

Transparência,  ficha limpa, extinção do voto secreto e extinção da imunidade parlamentar são todos bons caminhos para combater a corrupção na sua forma mais conhecida. Mesmo assim, pedir exímia conduta dos nossos governantes exige modéstia e que coloquemos em dúvida as práticas dos próprios cidadãos.

Perguntamos com frequência: quanto o governo roubou? Mas esquecemos de perguntar: quanto o cidadão não foi correto com alguém, pois tirar vantagem foi exclusivamente o que ele pensou?

Por exemplo: nós, eleitores, não demos aos governantes a liberdade roubar, da mesma forma que muitos autores de obras digitais não nos deram a liberdade de disseminar cópias de seus trabalhos ou de adquiri-las semi-gratuitamente. A aquisição mal-paga de produtos digitais protegidos por direitos autorais está incrustado na nossa cultura desde que a tecnologia passou a permitir. A tecnologia, não os autores das obras.

Nós não demos aos governantes a liberdade roubar, da mesma forma que muitos autores de obras digitais não nos deram a liberdade de disseminar semi-gratuitamente seus trabalhos.

Habitualmente, quem costuma baixar música protegida sem conhecer a fonte da cópia original argumenta que “é até melhor” para o artista, pois é um meio de “marketing gratuito”, promovendo-o em shows e publicidade de marcas. Concordo que disponibilizar músicas gratuitamente poderia até ser uma boa estratégia; no entanto, apenas o artista e o produtor têm o direito de decidir a respeito disso. Quem disse que uma banda deseja fazer grandes turnês mundiais para rentabilizar sua arte? Já falando de download de softwares, filmes e livros,  nem sequer se pode fazer shows com eles.

O cético vai insistir: “os produtores não vão ficar mais pobres, pois já têm o suficiente”. Novamente, cabe unicamente ao produtor fazer tal afirmação. Lembre-se: se você trabalha, você também produz. Você já tem o “suficiente”?

Por um lado, há uma grande resistência das produtoras, editoras e lojas em se adaptarem às novas tecnologias e ao fim das fronteiras no fluxo de informação e de obras digitais, o que ajuda a promover a pirataria. Por outro lado, é muito comum o consumidor confundir liberdade com viabilidade.

O cidadão que deixa de pagar por um produto protegido – e comercializado localmente – não o faz porque ele é livre, mas porque é uma ação viável. Neste caso, eu tenho o pesar de lhe informar, mas o dever de lhe dizer: este cidadão pensou exatamente da mesma forma que os políticos de quem gostamos de reclamar. A apropriação indevida foi considerada viável, possível e, por alguma razão, foi considerada justa.

O cidadão que deixa de pagar por um produto protegido não o faz porque ele é livre, mas porque é uma ação viável, e ele pensou exatamente da mesma forma que os políticos de quem gostamos de reclamar.

Um argumento típico ao se comparar as duas situações é o nível de gravidade, mas ela não elimina a existência de irresponsabilidade, qualquer que seja o caso.

O conforto das pessoas vem dos bens e serviços que elas consomem, e a produção desses produtos consome energia. Portanto, quanto maior o conforto, maior a energia consumida. Esta energia está embutida no valor de todo e qualquer produto, e parte dela é trabalho humano. O cidadão que não paga por um produto protegido, físico ou digital, não está contribuindo para a remuneração das pessoas que trabalharam para lhe oferecer aquele conforto. Portanto, ele  não é correto com o produtor e de forma totalmente análoga a qualquer outra forma de corrupção.

Pergunta-se, então: onde está a tão aclamada “justiça”? É comum ouvir dizer que não precisamos ser justos enquanto somos injustiçados. Seria algo como: “primeiro os governantes deixam de roubar, depois eu me preocupo em declarar todas minhas fontes de renda”. Entretanto, isso é responder ao egoísmo com egoísmo, ao desrespeito com desrespeito: fonte das mais graves ineficiências da sociedade, pois se está retroalimentando um ciclo doente.

Existe uma grande diferença entre ser justo e ser correto. Ser justo é responder em igual natureza e intensidade. Ser correto é responder com sua definição pessoal do que é o bem. Assim, a liberdade de cada um está na escolha entre (1) pisar na vida que te pisa e (2) mostrar o caminho certo para os que te pisam. Quem escolhe o primeiro mostra-se alinhado a uma sociedade extremamente doente, o que não pode ser louvável, pois é sinal de que se está tão doente quanto ela.

Existe uma grande diferença entre ser justo e ser correto. Ser justo é responder em igual natureza e intensidade. Ser correto é responder com sua definição pessoal do que é o bem.

George Carlin, comediante norte-americano, diz: “Os políticos não atravessaram uma membrana vindos de outra dimensão. Eles vieram de famílias americanas, escolas americanas, universidades americanas, empresas americanas… É o que nosso sistema produz: lixo entra, lixo sai”. De fato, a existência de corrupção entre os governantes é tão unicamente o reflexo da própria população, pois todos ainda compartilham do mesmo mundo competitivo e individualista, o que nos leva a priorizar o conforto próprio, custe “quem” custar, sem saber diferenciar o que é justo do que é correto.

Leia: Jogo da Vida

Como gosto de dizer, enquanto todos procurarmos o que é justo, ninguém encontrará o que é correto. Estamos promovendo, sem dar-nos conta, o mesmo mundo ineficiente do qual se quer escapar. Infelizmente, a corrupção é de mão dupla.

Enquanto todos procurarmos o que é justo, ninguém encontrará o que é correto.

Normalmente, preferimos aderir à opinião pública e à forma da maioria agir, pois isso nos dá conforto, já que não precisamos ser ousados. Entretanto, apontar para um criminoso e dizer “esse é um cara mau” não faz de você uma pessoa boa. Principalmente quando o melhor que se sabe fazer é culpar os “políticos” enquanto se esconde sobre diversos andares entre grades e cercas elétricas. Não. Isso definitivamente não nos torna bons.

Apontar para um criminoso e dizer “esse é um cara mau” não faz de você uma pessoa boa.

Cada um de nós é ruim na pretensão de ser o melhor [1] e, se estivéssemos fazendo o melhor, então estaríamos melhores. A maioria não é modelo de sucesso [2] e colocar em dúvida as práticas atuais é a melhor maneira de começar a mudar.

Por enquanto, apenas votar nas eleições é a coisa mais preguiçosa que podemos fazer. Sempre precisaremos de instituições representativas, mas é ilusão procurar por pessoas que serão, sozinhas, solucionadoras de problemas. É hora de quebrar paradigmas: quem constrói esse mundo somos nós, com as nossas atitudes.

 Os políticos somos nós.

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[1] Frase inspiradora de Pe. Marc Lambret.

[2] Frase inspiradora de Roberto Shinyashiki.

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Este texto está sob uma licença livre Creative Commons. Permite-se e incentiva-se a cópia, tradução e adaptação por qualquer meio, desde que para fins não comerciais, mantendo-se essas mesmas condições e fazendo referência ao link original do texto em maodupla.org.

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7 pensamentos sobre “Os políticos somos nós

  1. olá Marco, Sou um Trabalhador, sou técnico Formado com vários aperfeiçoamentos, … trabalhei toda minha “vida útil” na Iniciativa privada, sem nunca esquecer o cotidiano politico do nosso país, mundo, ETC. apesar de ABOMINAR DETERMINADAS PRÁTICAS ESCRAVAGÍSTAS, eu acredito que a humanidade somente se fundamenta no trabalho, no convívio comunitário, na Honestidade, na orientação a quem menos sabe, na solidariedade,na orientação do bem viver, ambiental-mente Correto, na partilha do saber, ETC.

    MAS; sou um Ativista Humanitário, “um revolucionário sem pegar em ARMAS” aprendi com o passar dos anos que EXISTE MUITAS INJUSTIÇAS provocadas por uma MINORIA DA HUMANIDADE LEVADA PELA GANÂNCIA QUE PREJUDICA UMA ESMAGADORA MAIORIA, desta feita eu concordo com você que TEMOS QUE RECICLAR O MODO DE AGIR, DE PENSAR, REVER CONCEITOS, CONSUMISMO, …
    mas em nosso país temos HERANÇAS CULTURAIS IMPERIAL DO COLONIALISMO MUITO RECENTE E MUITO “LATENTE”, NOSSA REPÚBLICA “É NOVÍSSIMA” ONDE RECENTE-MENTE IGREJA E ESTADO “ERA UMA COISA SÓ”, AINDA TEMOS “UMA PRÁTICA DE ASISTENCIALISMO DE ESTADO “, ONDE AS CAMADAS MAIS POBRES FICAM “VULNERÁVEIS” ,…

    E É AHÍ QUE ENTRA A QUESTÃO, É ESTA CAMADA QUE É EXPROPRIADA PELOS POLÍTICOS EM ÉPOCA DE ELEIÇÃO, PASSOU ESTE PERÍODO “TUDO CONTINUA COMO DANTES NO CASTELO DE ABRANTES”, POIS ESTE APÓS SEREM ELEITOS PASSAM A LEGISLAR EM FAVOR DE “UMA ELITE” COM UM CLIENTELISMO DESCARADO “ESQUECENDO” DO POVO, SEUS ELEITORES, ESTA É A CORRUPÇÃO MAIS GRAVE QUE É “CONSTRUÍDA” EM ÉPOCA ELEITORAL !

    # ENTÃO TEMOS QUE COMBATER ESTAS PRÁTICAS E PROVOCAR UMA MUDANÇA CULTURAL MASSÍVA NA POPULAÇÃO, SOMENTE DESTA FORMA PROVOCAREMOS MUDANÇAS DE FATO NAS POLÍTICAS EM NOSSO PAÍS, COMBATENDO AUTOMÁTICA-MENTE A CORRUPÇÃO,COMPRA DE VOTOS (redundante),….entre outras pragas expropriadoras que assolam o povo deste país, “globalização”,…

    • Caro Eduino, muito obrigado pelos teus comentários! As mudanças são necessárias, mas ninguém tem as soluções completas. Por isso proponho esse espaço, onde eu levanto as questões que vêm à minha cabeça para DISCUTI-LAS e evolui-las.

      Infelizmente, são poucos que se interessam por isso por enquanto: “Um erro muito comum no ser humano é acreditar que a verdade foi encontrada”, mas não existe uma única maneira certa.

      Por isso, vamos conversando e crescendo juntos, mudando aos poucos fazendo o nosso melhor. Abraço!

  2. Hehehe, realmente. A incoerência nestes casos é muito grande. Nós preferimos passar nossos dias descansando, indo em festas, do que nos sacrificando por outras pessoas. E quando vemos alguma figura pública que faz os primeiros, sem fazer o último, reclamamos. Mal sabemos que na verdade eles são o espelho de nossa própria mediocridade.

    • Obrigado, Pedro! Se puderes passá-lo a quem pode ser crítico agradeço. Preciso de críticas também, é minha única maneira de aprender…

  3. Se não sabemos quem somos e quais são os nosso valores, qualquer pressão do ambiente ou oportunidade de tirar vantagem não será resistida.
    O mundo está sempre em constante mudança, mas existem algumas coisas que não mudam: o significado de honestidade, responsabilidade…

    É tao raro, hoje, pessoas honestas e sinceras que quando ocorre algum caso, a mídia para perplexa e aplaude tal atitude, sendo que isso deveria ser o cotidicano de todos.Por que alguns conseguem se manter íntegros e para outros isso é sinal de tolice?

  4. Músicas já podem ser compradas individualmente, sem precisar de uma assinatura, através do iTunes e Amazon. O problema é que ainda é preciso pagar em dólar e nem todas as gravadoras tem acordos de venda que envolvam o território brasileiro. Também já existem algumas formas de assistir ou comprar filmes online, sem mídia física, como Netflix e SundayTV.

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